Em Pleno Mar – à bordo dos navios de Castro Alves, Samuel Taylor Coleridge,
J. M. William Turner e Gustave Doré

Caio Gagliardi(*)

Quando aceitamos como descritor da poesia de Castro Alves o rótulo abolicionista, enfatizamos aquele que é possivelmente seu aspecto histórico mais determinante. A legitimidade dessa leitura não delimita, contudo, uma fronteira de atuação crítica, posto que a ela se acrescenta uma perspectiva dialética.

Advoga a favor de livros como Os Escravos e Espumas Flutuantes a consideração de que ali a realidade da poesia não adere à realidade presente, antes a superdimensiona, emprestando ao escravo, em geral em poemas de maior fôlego, uma dimensão mais abrangente do que a tradicional denúncia epidérmica. Desse ponto de vista, dizer simplesmente abolicionista significa alargar o alcance do termo para além da alcunha participante, demarcada espaço-temporalmente. 

Se, de um ponto de vista ideológico, o motor de parte importante da poesia de Castro Alves funciona em defesa de uma causa social, seu comprometimento não faz dela poesia de circunstância, e nesse sentido destinada a perder o viço conforme as transformações no sistema de organização social desabilitem a produção textual do empenho na denúncia. 

Além do gradativo reajuste estrutural da sociedade, observado nas primeiras décadas do século XX, com o lento processo de inclusão do negro no mundo proletário, pese-se a superação da própria noção abolicionista. No que tange a esse aspecto, em 1939 um Mário de Andrade fatigado e escoltado pela luz da distância apontava para a posturapiedosa” de Castro Alves, que, nas palavras do modernista, o impedia de considerar a igualdade humana uma necessidade moral, tratando-a como conquista: 

Castro Alves jamais ergue os escravos até sua altura, mas se abaixa até os seus irmãos inferiores. A África não é uma grandeza diferente, é uma infelicidade. “Minhas irmãs são belas, são ditosas” dizem as geniais Vozes da África, num engano prestidigitador de visão... Ou melhor: numa mentira convencional, imposta pela piedade...(1)

Sumariamente, ambas as ponderações indicam que o problema crítico da “datação” de Castro Alves reside na dificuldade de superação de uma relação unívoca entre obra de arte e sociedade. Superá-la significa gerar mecanismos, inventar perspectivas, colher indícios que sirvam de respaldo para interpretar a poesia de Castro Alves com relativa independência da escolta ostensiva da realidade coletiva de seu tempo, possivelmente numa zona de tensão dramática entre os desígnios naturais de um destino humano, e os percalços, os desajuntamentos históricos, que a ele se interpõem. São, de um ângulo mais aberto, essas as forças geradoras e de vetores opostos que conferem longevidade ao poeta.

Uma síntese clara dessa dialética de longo alcance:

Assim, pois, há inicialmente em Castro Alves o sentimento da história como fluxo, e do indivíduo como parcela consciente deste fluxo. Por isso logrou uma visão larga do escravo, que não é para ele apenas caso imediato a ser solucionado, mas símbolo de uma problemática permanente, termo e episódio do velho drama da alienação do homem, que sente, como bom romântico, em termos de luta perpétua entre o bem e o mal.(2)

Parto aqui dessa perspectiva, porque ela possibilita traçar rotas mais longas e menos previsíveis pela lírica social castroalviana: se o drama imediato da escravidão traz em seu bojo uma tensão permanente, da qual ele é um exemplo histórico, podemos alimentar essa perspectiva de uma atitude crítica pautada em relações menos diretas entre o texto e seu lugar e momento de produção.

Deslocada de seu contexo imediato, essa poesia suscita, por intermédio de inúmeras citações e epígrafes, um aparato de referências com papel muitas vezes decisivo na constituição de seus textos. Nesse âmbito, atitude corrente é atentar para as relações que existem entre o poeta e Victor Hugo. Aproximações menos previsíveis que essa – simplesmente por não serem antecipadas como epígrafe, no corpo dos poemas – produzem, contudo, efeitos de leitura importantes e que requerem especial atenção.

É este o caso. Com esse fim, passo à leitura d’ “O Navio Negreiro”, poema dentre aqueles do autor que produziram maior ressonância em seu tempo, e que deram voz aos ideais libertários opostos à identificação da nação com um mundo ainda estruturalmente colonial.

À propósito do poema, em Dialética da Colonização, Alfredo Bosi faz menção a “Das Sklaver Schift”, de Heinrich Heine, vertido para o português por Augusto Meyer como “O Navio Negreiro”. Bosi afirma que, segundo o tradutor, Castro Alves teria conhecido a versão francesa em prosa do poema de Heine, publicada na Revue des Deux Mondes, bastante veiculada no Brasil daquele tempo. Segundo Bosi, o próprio Meyer reconhece, todavia, as diferenças estilísticas entre os dois textos: “Heine fala do comércio negreiro de modo objetivo, seco, escaninho; Castro Alves o faz com uma dicção oratória e patética.”(3)

Consideração da mesma espécie se encontra nas Obras Completas de Castro Alves, de 1921, em que Afrânio Peixoto compartilha da perspectiva de Mucio Teixeira:

Para rebater a insinuação que lera algures, de ser o “Navio Negreiro” uma versão, ou transposição, ou reminiscência d’ O Negreiro de H. Heine, Mucio Teixeira (Vida e Obra de Castro Alves. Bahia: 1896, p. 205, etc.) publica este, por confronto, traduzido em prosa. Além de uma cena terrível de tráfico de escravos (que, nem Heine, nem Castro Alves inventaram) a idéia que domina nos dois é o contraste trágico da dança dos desgraçados, ainda a chicote, para a distração da nostalgia que os fazia morrer. Certamente realidade contada por algum negreiro, que inspirou a ironia de Heine, como a piedade de Castro Alves.(4)

Direta ou indiretamente, por força da leitura ou tradição, parece que um texto que pode ser visto com maior rigor estético como parent poem do texto em pauta é o poema longo de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), “The Rime of Ancient Mariner”.(5)

Poema narrativo em tom declamatório, o “Ancient Mariner remonta à oralidade dos fins da Idade Média tanto no estilo quanto na metrificação, que se mantém fiel às antigas baladas populares. O uso do inglês arcaico e das pequenas glosas ao lado dos versos corrobora a obtenção desse efeito. No tocante à estrutura, alguns anacronismos possibilitam identificar o poema em seu tempo. A temática marítima, incomum na Idade Média, evidencia uma concepção moderna em retrospectiva, remodeladora da tradição medieval.

Tradicionalmente, as baladas são poemas de três estrofes com oito versos cada e uma meia-estrofe chamada envoy, cujo último verso repete os últimos das demais. O envoy traz uma mensagem à pessoa para quem se refere ou que anuncia. O que mais chama a atenção nesse tipo de texto é o esquema rigoroso das rimas: ababbcbc nas três primeiras estrofes, e bcbc no envoy. a estrutura do poema de Coleridge é assimétrica, a começar pela quantidade de estrofes, próxima a 150, com 4, 5, 6 e 9 versos, e rimas variáveis.

O texto lida com o sobrenatural, e pode ser visto, inclusive, como um dos ancestrais da chamadaliteratura fantástica”, que recebeu estatuto de gênero literário bem mais tarde. Há uma aura de mistério que ao mesmo tempo aterroriza e vivifica sua leitura, provocando um arrebatamento de natureza atípica nas antigas baladas de Chaucer (1340?-1400), por exemplo. Trata-se da narrativa de um navio amaldiçoado pelo espírito de uma ave, depois de ela ser arbitrariamente morta por um de seus tripulantes. A maldição principia com o cessar do vento e a aparição de um navio espectral, que navega sem velas. O poema tem no moralismo cristão a sua face ética, que se revela explicitamente nos últimos versos.(6)

Essas características preliminares, como o apelo ao sobrenatural, a idéia de maldição, a incorporação da moral cristã e a volta ao passado são constantes na poesia de Castro Alves. Note-se, por exemplo, como o poeta condensa parte desse repertório na seguinte passagem de “Lúcia” (1868):

(...)
De repente, lembrei-me... “Lúcia! Lúcia!”
... A mulher voltou... fitou-me pasma,
Soltou um grito... e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
...Mas, súbito, estacou... nuvens de sangue
Corou-lhe o rosto pálido, sombrio...
Cobriu co´a mão crispada a face rubra,
Como escondendo uma vergonha eterna... 

Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!(7)

O assombro de Lúcia, num misto de horror e desvario, é amplificado pelo peso da pontuação, pela tensão das pausas e da linguagem enxuta, e, sobretudo, pelo teor sombrio e misterioso que advém da suspensão de algo que a jovem segreda, e que não é revelado ao leitor. As correspondentes imagéticas em antítese, “rosto pálido” X “nuvens de sangue” (com evolução paraface rubra”) e sua expressão sonora “soltando um grito” compõem ainda uma atmosfera de tensão psicológica, em que o horror não é explicado