Entrevista com Glauco Mattoso

Caio Gagliardi & Pedro Marques


Ao
longo de três décadas de intensa atividade intelectual, o poeta, ficcionista, ensaísta, letrista, colunista, “fanzineiro” e tradutor Glauco Mattoso (pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, paulistano de 1951) vem acumulando, entre entrevistas e depoimentos, um número significativo de testemunhos sobre seus mais de mil sonetos, cerca de 20 livros (4 deles inéditos) e uma antologia de próprio punho, Poesia Digesta (1974-2004). Afora esses textos, matérias sobre seu perfil pessoal, e declarações de outros escritores, é ínfima a resposta crítica à sua poesia.

Se, por um lado, essa desproporção evidencia o acréscimo de significativo volume documental a ser investigado, por outro, deve ser encarada com método, porque o reconhecimento desses textos requer atenção sobre a necessidade de distanciamento crítico dos enfoques, dos propósitos, e da linguagem de que o poeta se vale nessas ocasiões. Uma linguagem, em síntese, eivada de referências à sua história pessoal, que opera a serviço da própria poesia, mas em termos de expressão autobiográfica.

G. Mattoso atribui à formação como bibliotecário (formou-se também em Letras Vernáculas, na USP) a poesia meticulosamente organizada em séries temáticas; à cegueira (decorrente de um glaucoma progressivo que lhe roubou integralmente a visão em 1995), a predileção pela forma fixa, nomeadamente o soneto (que o permitiria escrever de memória), e o pseudônimo (glaucomatoso: “Adj. e s.m. Que ou aquele que tem glaucoma”); à condição de homossexual, não raramente associada à deficiência visual, a autovitimação e a segregação social; e às humilhações vivenciadas na infância, o posicionamento contracultural, norteado pela denúncia à opressão (da ditadura ao trote), da sátira à vida política e burguesa, do escárnio cultural, da brutalidade social, da provocação à ordem, do fetichismo podólatra, da simbologia fecal e da obscenidade. G. Mattoso entende, em síntese, o exercício da poesia como forma de “vingança mental contra humilhações sobretudo pessoais.

Com os mais incautos, essa iniciativa corre o risco de fazer desviar a atenção do texto para a personalidade e a biografia do poeta. Segundo esses testemunhos, a poesia é encarada comosolução paradoxal” aos percalços da vida. Do ponto de vista literário, o segundo termo da expressão é o mais produtivo, uma vez que a idéia de solução não se associa ao sujeito, mas à personalidade literária criada por Mattoso. Se o autor pensa e vive como diz, se sua poesia o ajuda a superar um trauma de infância, ou se ela é ainda conseqüência disso, o crítico literário não está apto a testar sua eficácia, ou a entrar no mérito moral dessas questões. O seu trabalho se destina a colocar de lado curiosidades antropológicas, e tratar não desses temas, como da própria confissão em si, como partes de uma obra em progresso, e, portanto, efeitos do trabalho com o estilo.

Não se trata de impugnar possíveis discussões que se travem em termos de veracidade. Mas de enxergá-las como componentes do culto à personalidade, e da atração pelas definições de escola (“marginal”, “punk”, “pós-concreto”, “maldito”, “pós-maldito”). Sobram rótulos nesse sentido, expressões cunhadas pelo próprio poeta para designar diferentes estágios que marcaram sua trajetória. Um exemplo histórico: o "datilograffiti", do “Jornal Dobrabil”, que designa um fanzine de protesto político, escrito à máquina, em que o poeta incorpora a exploração espacial da página e diferentes tamanhos de fontes, praticados pelos concretistas, ao prosaísmo do que chama de “literatura de mictório”, ou seja, grafites de banheiro público. Ou o caso mais recente do “barrockismo”, em que alia ao rigor formal do soneto o vocabulário chulo, o lugar-comum, a temática cotidiana e a provocação.

Ainda distante de receber a atenção crítica merecida, Glauco Mattoso é hoje um exemplo raro em nossa literatura, por apresentar domínio absoluto (respaldado por desenvolvimento teórico) sobre as técnicas que emprega, ampla consciência do papel e dos vetores de sua poesia, erudição aliada ao uso variado e criativo da cultura popular, fisionomia autoral inconfundível, e postura crítica provocativa e inconformista diante dos mais diversos aspectos sociais. Não mais do que uma pequena amostra do amplo lastro de atributos do poeta, a entrevista que se segue justifica plenamente essas palavras.


Crítica & Companhia:
Glauco, sua poesia se afirma num registro de escrita desalinhado do cenário mais visível no país. O desalinho não significa, contudo, orfandade. O terreno por onde ela envereda é, grosso modo, o da sátira. Nomes como Marcial, Catulo, Aretino, Rabelais, Cervantes, Gregório de Matos, Bocage, Laurindo Rabelo e Apollinaire surgem naturalmente como heranças literárias.
 


Mote
 

Dois corações que se amam,
Sem falar se comunicam. 

Glosa 

A freira que madre chamam,
E o frade, que é frei Carvalho,
Sustentam com seu trabalho
Dois corações que se amam.
E tão bem se verificam
Com manobras tão seguras
Que, trabalhando às escuras,
Sem falar se comunicam.

(Laurindo Rabelo)


Mote
 

Não sei quem diabo inventou
mulher, cachorro e menino! 

Glosa 

Agora que cego estou,
mulher tem de mim;
macho zomba! Azar assim
não sei quem diabo inventou!
Na fossa mais fundo vou
quando meu lado canino
assumo e, então, me imagino
lambendo o dum frangote!
De três bichos fiz meu mote:
mulher, cachorro e menino! 

(Glauco Mattoso)


Ainda
que seja instigante considerá-la sobre o pano de fundo de seus antecessores, nos seus poemas a sátira parece ter efeito muito particular. Será relevante considerar que um dos principais alvos da sátira mattosiana seja justamente a figura de seu autor?

Glauco Mattoso: Acho que no meu caso a sátira é mais autofágica. Bocage e outros fazem seu auto-retrato em algum momento (lembremos do famoso soneto bocagiano em que o autor se diz "bem servido de pés"), mas eu converto o auto-retrato em autoflagelação, um recurso que, ao mesmo tempo que exorciza os fantasmas e demônios que me assombram, atrai a curiosidade dita "mórbida" da multidão que se aglomera na praça para ver o palhaço cego ateando fogo às vestes e dançando para divertir a platéia. O diferencial talvez esteja no grau de desgraça pessoal, que, no plano literário, traduz-se em "maldição poética": enquanto outros menestréis alfinetavam o poder político que os perseguia ou a moral social que os patrulhava, eu parto da própria deficiência física (da qual tiro o nome de pluma) para deblaterar contra um poder até mais alto e absoluto – o do dito Onipotente. Além disso, há que ressaltar que, se não me engajo numa trincheira política (esquerdista ou direitista) nem estética (passadista ou futurista), não posso me apoiar na cômoda perspectiva do maniqueísmo e tenho que voltar minha metralhadora giratória para todos os lados. Sendo assim, meu poder de fogo pode ser efetivo se eu partir do princípio de que não devo poupar nem a mim mesmo. assim ganho, digamos, "autoridade imoral" para sair dando porrada em qualquer um e em todo mundo.


C&C:
A ótica da sua história pessoal, do jovem homossexual abusado e humilhado, tem contrapartida poética. A reação mais contundente às vicissitudes do passado parece residir justamente numa espécie de resignação calculada: ao invés de devolver o pontapé, sublima-se o chute, oferece-se a outra face, empina-se o quadril, venera-se o . Assim, o objeto de temor, a bota, é transfigurado em objeto de desejo. Fetichizam-se os mecanismos de opressão, desarmando o agressor. Sua poesia leva o opressor a confrontar-se com o próprio sadismo por meio da postura masoquista do oprimido?


SONETO
ASSUMIDO [509]
 

Mattoso, que nasceu deficiente,
ainda foi currado em plena