Uma Leitura de “Bliss”, de Katherine Mansfield – A Vida como Origem(1)

Adriana de Freitas Gomes(2)

Mas eu lhe digo, meu tolo senhor, dessa
urtiga, o perigo, colhemos esta flor, a salvação.
Shakespeare, Henrique IV, parte I.(3)

1.

As palavras de Shakespeare citadas como epígrafe estão gravadas na pedra tumular de Katherine Mansfield (1888-1923), considerada a melhor contista da literatura inglesa.  Palavras que ela sempre amou e que foram, coincidentemente, escolhidas pela autora para a página de rosto de “Bliss”, nosso objeto de análise neste artigo.

“Bliss” é o conto que solidificou a carreira literária de Katherine Mansfield. Virginia Woolf, sua grande admiradora, confessou em seu diário ter sido Katherine Mansfield a única escritora por cujo talento se sentia ameaçada. Ainda, segundo Esdras do Nascimento, em Diário e Cartas (1996), “conta-se que Virginia Woolf, depois de ler Bliss, tomou um porre e ficou gritando num bar: “Eu morro de inveja dessa mulher”” (p. 14). Se verdade ou não, foi através de “Bliss” que Katherine Mansfield se tornou reconhecida em muitos países e também no Brasil, com a primeira tradução para o português realizada por Érico Veríssimo, em 1937. Posteriormente, Julieta Cupertino e Ana Cristina Cesar também o traduziram. Em nossa análise, iremos nos basear na versão de Ana Cristina, publicada postumamente por sua mãe, Maria Luiza Cesar, na obra Escritos da Inglaterra (1988, p. 23-84), com o título de “Êxtase (Bliss)”, com a qual a tradutora recebeu o título de Master of Arts, with distinction, na Universidade de Essex, Inglaterra, em 1981. Ainda, buscando compreender melhor “Bliss”, iremos recorrer a algumas das 80 notas por ela escritas, bem como a seu prefácio ao conto.

se disse que tudo o que se escreve tem um quê de autobiográfico, e podemos afirmar que em Katherine Mansfield esse axioma ganha tonalidades de verdade. Assim como muitas de suas histórias, “Bliss” também é representativa de sua escrita autobiográfica. Ana Cristina, em seu prefácio, declara: 

Não constituiu coincidência alguma o fato de que, ao mesmo tempo em que eu traduzia o conto Bliss, ia mergulhando, paralelamente, no diário de KM, em suas cartas e biografias. Um leitor atento afirmou:  “Não consigo pensar em KM apenas em termos de autora literária. Ela ocupa lugar de destaque entre os escritores modernos que primam pela originalidade e subjetividade e, em seu caso, ficção e autobiografia constituem uma única e indivisível composição”. [...] Na qualidade de autora, essa fusão de ficção e autobiografia me seduz. E, na qualidade de tradutora – alguém que procura absorver e reproduzir em outra língua a presença literária de um autor não consegui deixar de estabelecer uma relação pessoal entre Bliss e a figura de KM (CESAR, 1988, p. 12-13, grifos meus).

É recorrente entre os críticos a assertiva de que a obra de Katherine Mansfield é um espelho de sua vida, como bem atesta Rhoda B. Nathan, professora da Hofstra University, em Nova York, numa edição da série Literature and Life: British Writers (“Literatura e Vida: Escritores Ingleses”), intitulada Katherine Mansfield (1988). Em seu primeiro capítulo, a estudiosa aborda os dados biográficos de Katherine Mansfield, e o faz sob o título “The Life as Source” (“A Vida como Origem”, p. 1-11), deixando claro ao leitor que vida e ficção se mesclam na escrita literária da autora neozelandesa. Não são aleatórias as palavras com as quais Rhoda Nathan abre esse capítulo: 

Certamente não um artista na história cuja vida não está, de algum modo, refletida  em seu trabalho. Ao biógrafo é dada a tarefa de descobrir e iluminar as conexões entre a vida do artista e o seu trabalho, tendo em mente o fato de que este deforma, distorce, e reforma os fatos de sua vida para adaptá-los à sua visão pessoal. No caso de Katherine Mansfield, os estágios sucessivos de sua vida estão claramente refletidos em sua ficção. (NATHAN,  1988, p. 1, grifo meu).(4) 

Assim, várias são as referências autobiográficas que Katherine Mansfield apresenta em seus contos, e bem ressaltadas por Rhoda Nathan ao longo de seu texto, sendo que algumas nos são muito significativas, visto que presentes em “Bliss”. De acordo com a estudiosa, Katherine Mansfield teve uma infância bastante conturbada e era vista como uma garota  rebelde e petulante. Ainda muito jovem, deixou sua cidade natal, Wellington, em Nova Zelândia, e foi para Londres. Durante sua estadia na capital inglesa, a contista apaixonou-se muitas vezes, e “seus romances, alguns triviais e outros sérios, realizados e não realizados, são de grande importância, visto que contribuíram significativamente para o sucesso de muitas das suas histórias de romance, galanteio e casamento” (NATHAN, 1988, p. 6).(5) Rhoda Nathan continua descrevendo detalhes biográficos da autora que nos serão muito bem-vindos:

Seu próprio desenvolvimento sexual foi ambivalente. Quando completava o ensino médio na “Miss Swainson’s School”, em Wellington, ela apaixonou-se por uma exótica garota Maori. A segunda versão não censurada do seu Diário revela sua apaixonada atração lésbica pela jovem mulher, chamada Maata Mahukupu:
Eu quero Maata, eu a quero – e eu a tive – extremamente isto é impuro, eu sei, mas é verdadeiro. Uma coisa extraordinária – e eu me sinto selvagemente rude – e ainda mais poderosamente apaixonada pela menina” (MANSFIELD citada por NATHAN, 1988, p. 6).(6)

Segundo a biógrafa, Maata, conhecida como Martha Grace, parece ter-se entregado a Katherine Mansfield, mas não correspondeu aos sentimentos da agressiva amiga. Rhoda Nathan prossegue: 

A experiência, do ponto de vista de Mansfield, contudo, é significativa, visto que ela retorna ao tema do lesbianismo em algumas de suas histórias mais tarde e, mais notavelmente, em “Bliss”, na qual Bertha, assim como a própria Katherine, encontra-se apaixonada pela exótica, distante e passiva Pearl Fulton (NATHAN, 1988, p. 6, grifo meu).(7)

Esses dados apresentados por Rhoda Nathan nos suscitam grande interesse. Isto porque, como afirmou a própria autora, o intenso romance vivido por Katherine Mansfield encontra-se retratado nas entrelinhas de “Bliss”. Ainda outros estão presentes no conto, e serão salientados.

 

2.

“Bliss” foi escrito em 1918, época em que Londres se tornou o palco de intensos protestos e o movimento feminista estava no auge. As sufragettes londrinas se lançavam às ruas reivindicando melhores condições para as mulheres, e esseativismo de rua também era uma forma de lutar contra a discriminação do sexo e pela igualdade de direitos, como o direito ao voto feminino. Suas manifestações possibilitaram um número considerável de divórcios na Inglaterra neste período, visto que se tornou mais fácil à mulher libertar-se do marido cruel ou adúltero. Assim, o interesse da crítica feminista era debater a posição de prestígio e autoridade que os homens, durante séculos, ocuparam em relação às mulheres, questionar a identidade feminina definida pelo discurso patriarcal, suas concepções, mitos e estereótipos acerca das mulheres. Também na literatura, a mulher denunciava os maltratos que sofria, bem como as desigualdades de oportunidades devido às diferenças sexuais. Algumas autoras usavam a escrita como uma forma de protesto e reivindicavam uma sociedade igualitária, como o fez Virgínia Woolf, em Um Teto Todo Seu, em 1929. Anos antes, em 1908, Katherine Mansfield escreveu as palavras abaixo em seu diário, quando estava com 20 anos de idade: 

Acabo de terminar a leitura de um livro de Elizabeth Robins, Come and find me (Venha e me encontre). Realmente, um livro brilhante, esplêndido; cria em mim uma tal sensação de poder! Sinto que agora realmente posso imaginar do que as mulheres serão capazes, no futuro. Até agora não tiveram sua oportunidade. Falar de nossos dias iluminados, de nosso país emancipado – pura tolice! Estamos firmemente presas com grilhões de escravidão que nós mesmas modelamos. Sim, agora percebo que nós os fizemos e temos de tirá-los. [...] É a doutrina desesperadamente insípida, segundo a qual o amor é a única coisa no mundo que é ensinada e posta dentro das mulheres, de geração em geração, e que nos detém de um modo tão cruel. Devemos nos livrar desse demônio – e então virá a oportunidade de felicidade e libertação (MANSFIELD, 1996, p. 31).(8)

Embora jovem, a autora expressava sua indignação em relação àquela sociedade patriarcal inglesa, em que a mulher era escrava do homem, escrava social e serva da burguesia. Seja da elite ou da classe média, sua vida se passava principalmente no interior da casa, onde recebia aulas de trabalhos domésticos e bordado. A imagem que se tinha do “segundo sexo”, segundo Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1990), estava associada à idéia de inferioridade física e mental. No entanto, as mulheres contestaram veementemente a tão propalada inferioridade do sexo feminino, e buscavam sua emancipação. Escrito em plena efervescência do movimento feminista, “Bliss” leva a uma análise acerca da posição e do papel da mulher dentro da sociedade inglesa pós-vitoriana, através de sua protagonista Bertha Young.

Descrita como uma típica mulher burguesa, Bertha tem, segundo a sociedade da época, “tudo”, ou supostamente tudo, para ser feliz: um bebê maravilhoso, um marido muito bem-sucedido e amigos elegantes. Elanão havia que se preocupar com dinheiro” (p. 32), pois “a casa e o jardim eram absolutamente satisfatórios” (p. 32), completos com