Antonio Machado e a Geração de 98
Marco Catalão (*)

A Espanha do final do século XIX, quando Antonio Machado (1875-1939) começou a escrever, estava marcada por um grande atraso econômico e social. Dois terços da população economicamente ativa dedicavam-se à agricultura, em que a ausência de técnicas de trabalho modernas ocasionava uma baixa produtividade. Nas indústrias mais importantes, a defasagem técnica em relação ao restante da Europa era patente. Nas universidades, desconhecia-se praticamente o ensino de técnicas científicas modernas, o que originava a má preparação dos cientistas e dos profissionais. A porcentagem de analfabetismo chegava a quase 80% da população, enquanto 60% dos jovens não estavam escolarizados, e o orçamento militar era dez vezes superior ao da educação(1).

Com a derrota nas guerras coloniais contra os Estados Unidos e a perda da posse de Cuba, Porto Rico e Filipinas em 1898, as ilusões de grandeza nacional cultivadas desde a restauração da monarquia, em 1873, revelaram-se falaciosas. Surgiu então uma série de estudos sobre o “problema da Espanha”, que propunham soluções em linguagem pragmática e cientificista, quase todas de caráter econômico e educacional. No entanto, dada a importância para a intelectualidade espanhola da relação entre história, identidade do povo e política, freqüentemente esses tratados propunham idéias para a “regeneração nacional” baseadas numa interpretação da história nacional em que se condenava a política econômica dos Habsburgo e se exaltava uma Idade Média mítica e “castiça(2).

Paralelamente ao movimento regeneracionista, aos poucos cristaliza-se um grupo de intelectuais que, céticos em relação aos resultados do liberalismo do século XIX e à eficácia das instituições políticas, buscam soluções para o “problema da Espanha” não em ações concretas, mas em zonas do pensamento e atividades alheias à política. Ángel Ganivet (1865-1898), em sua tese España filosófica contemporánea, de 1889 (cujas idéias serão ampliadas no Idearium español, de 1896), não relaciona a crise nacional a um problema político, econômico ou social, mas remete-a a um problema essencialmente espiritual. “Por essa razão, [Ganivet] ignora deliberadamente medidas como a reforma agrária, a industrialização, ou a redistribuição do poder político, que poderiam ajudar a enfrentar os problemas de um modo concreto e prático. Em lugar disso, localiza as raízes do problema na mentalidade nacional(3).

Miguel de Unamuno (1864-1936), a partir do ensaio intitulado En torno al casticismo, de 1895, afasta-se do marxismo e passa a considerar a compreensão do “caráter nacional espanhol como essencial para a regeneração econômica e social do país. Para ele, essa compreensão deveria fundamentar-se não na história oficial dos “grandes acontecimentos”, dos livros e monumentos, mas no que ele denominou a intra-história, a história potencial nunca cumprida do povo espanhol, revelada através da paisagem física, de algumas obras de arte e da vida cotidiana das classes mais baixas, supostamente alheias às transformações temporais.

Quando, em dezembro de 1901, três jovens escritores, Azorín (José Martínez Ruiz, 1873-1967), Pío Baroja (1872-1956) e Ramiro de Maeztu (1874-1936), publicam seu manifesto sobre a regeneração nacional, em que advogam pela educação obrigatória, pelo crédito agrícola e pela legalização do divórcio(4), Unamuno nega-se a unir-se a eles, alegando que propunham reformas práticas, desconsiderando a necessidade de transformar a mentalidade do povo. Pouco tempo depois, influenciados por Unamuno, Baroja afirmaria que nada se conseguiria sem um novo ideal, e Azorín defenderia a primazia das mudanças individuais sobre as transformações políticas(5).

Unido pelo ideal comum da regeneração da Espanha a partir da descoberta de sua “verdadeira identidade”, surge então o primeiro grupo intelectual ativo e influente culturalmente nos rumos do país, “a primeira geração espanhola que teve uma consciência clara de seu papel diretivo na vanguarda política e social(6): a “geração de 98”, assim batizada por Azorín em 1913, tomando como base o ano da perda de Cuba ainda que, como se viu acima, algumas de suas idéias essenciais remontem a um período anterior.

De acordo com as concepções de Unamuno e Ganivet, a busca pela identidade espanhola deveria fundamentar-se no estabelecimento de “um núcleo central e imperecedouro da tradição nacional, uma base firme que permitisse examinar o passado e fazer recomendações face ao futuro: umnúcleo castiço’, ‘uma força dominante e central’”(7). Para isso, os escritores da geração de 98 buscaram “a continuidade nacional” (frase de Baroja) na paisagem física (deve-se lembrar a forte influência das concepções deterministas na época), na arte (com particular destaque para o Don Quijote, cujo terceiro centenário se comemorou em 1905) e na existência anônima e humilde do povo à margem da história oficial: “O que não se historiava, nem se romanceava, nem se cantava na poesia, é o que a geração de 98 quer historiar, romancear e cantar(8).

O primeiro desses imperativos, a necessidade de conhecer a terra espanhola, foi uma vertente muito fecunda na obra desses escritores, que, através do conhecimento adquirido nas várias excursões (solitárias ou em grupo) feitas pelo território nacional, transformaram radicalmente o tratamento da paisagem na literatura espanhola: esta deixou de ser simples cenário decorativo para tornar-se elemento revelador e simbólico. Livros fundamentais do grupo, como Camino de perfección (Baroja, 1902), La ruta de Don Quijote (Azorín, 1905) e Campos de Castilla (Machado, 1912), estão centrados numa descrição que é ao mesmo tempo interpretação da paisagem nacional.

Deve-se ressaltar, assim, que a meta de uma observação objetiva visando a um melhor conhecimento da realidade do país não evitou que os elementos concretos fossem muitas vezes ofuscados ou distorcidos pelas concepções teóricas dos escritores. Como ressaltou Moreno Hernández, Castela, a paisagem por excelência da geração de 98,  “é tanto um espaço geográfico segundo as coordenadas deterministas, como um lugar retórico, uma reserva de fragmentos e estereótipos transferíveis de um discurso, ou gênero, a outro, e de um autor a outro(9).

Como centro físico e espiritual das preocupações do grupo, a região de Castela surgia como símbolo da autenticidade espanhola anterior aos reis católicos: “Se todos os escritores de 98 cantam literariamente a Castela, ademais de cantar sua terra natal; se todos encontram em sua dramática aspereza certa delicadeza última e quintessenciada, e olham-na com íntima e fina nostalgia, por trás de seu sentimento opera o mito histórico de uma Castela espanholamente pura em sua origem remota(10).

Essa mesma idéia de “pureza medieval” levará a uma alteração no cânone literário, com uma revalorização dos “escritores primitivos”; assim, “à tradição de Calderón oporão a tradição de Berceo e de Jorge Manrique; à épica moderna, o Romanceiro; a Francisco de Rojas, o Arcipreste de Hita”(11). Nas artes plásticas, serão louvados aqueles que souberam se ater à “realidade cotidiana” e à paisagem espanhola: Velásquez e, sobretudo, Goya e El Greco. Don Quixote (mais do que Cervantes) será considerado um símbolo da espiritualidade medieval  resistente ao materialismo moderno.

Se as inquietações próprias dos escritores de sua geração com respeito à Espanha não permaneceram alheias a Antonio Machado durante o primeiro decênio do século (lembremos que ele colaborava nas mesmas revistas em que estes escreviam; que em 1903 freqüentava ocasionalmente a tertúlia de Baroja e Azorín no Nuevo Café de Levante, em Madri(12); que participou, em 1905, junto com esses dois escritores e mais Unamuno e Maeztu, do protesto coletivo contra a concessão do prêmio Nobel a Echegarray), a visão do grupo de 98 se incorporou a seus poemas a partir de 1907, depois de sua mudança para Soria.

Para que se entendam os motivos por que Machado tardou a aderir ao grupo, deve-se levar em conta que, antes do surgimento das obras dos escritores de 98, no período em que ele começou a escrever, era muito grande na Espanha o prestígio de um outro movimento literário, o modernismo. Este vocábulo tem uma acepção particular na história da literatura espanhola, referindo-se ao movimento surgido na América Latina nos anos 80, primeiro em prosa, e depois em verso, sob a liderança do escritor e patriota cubano José Martí (1852-1895) e do poeta nicaragüense Rubén Darío (1867-1916), com raízes no simbolismo e no parnasianismo franceses. “Os modernistas dedicaram-se a um esteticismo consciente, à Arte como supremo absoluto, à Beleza como ideal máximo, e à radical renovação formal da prosa e da poesia como meios para sua consecução. Exaltaram a imaginação criativa e a fantasia como opostas à observação realista e aos cânones aceitos pela literatura burguesa do século XIX.”(13)

O modernismo exerceu forte influência na poesia espanhola do período, e Machado, como Ramón Jiménez e Valle-Inclán, formou-se escritor dentro de sua estética. Se a refundição, em 1907, de seu primeiro livro, Soledades, de 1903, tem por finalidade não apenas retirar os poemas piores, mas também eliminar, sobretudo em seu aspecto formal,  as sobrevivências modernistas (tais como os elementos mais descritivos e os efeitos de sonoridade), elas se manifestam de forma evidente na imagem recorrente dos parques abandonados, na concepção do poeta como vidente e da poesia como operação alquímica, e em alguns traços formais que persistirão inclusive em Campos de Castilla, de 1912(14).

Na verdade, a divisão da literatura espanhola do início do século XX em dois grupos opostos — modernistas, preocupados sobretudo com a renovação formal, e geração de 98, atenta sobretudo ao “problema da Espanha” — não é unanimemente aceita pela crítica atual. Antonio Ramos-Gascón, estudando a colaboração dos escritores para as revistas em que estes iniciaram suas trajetórias literárias, chega à conclusão de quesem necessidade de recorrer às formulações teóricas expostas pelagente nova’ ao final do século XIX, o estudo detido do comportamento literário deste grupo revela-nos a inexistência de um enfrentamento entremodernismo’ e ‘98’. Martínez Ruíz, ‘anarquista literário’, traduz Kropotkin, mas também Maeterlink; Baroja, ao mesmo tempo em que nos descreve ‘a luta pela vida’ na Madri da época, estuda na Revista Nueva a coloração dos sons; Benavente, refinado esteticista, publica em Germinal esquetes dramáticos de clara tendência anarquista; Juan Ramón Jiménez, como assinalamos, alterna os poemas de Alma de violeta [sic] com poesias sociais; Federico Urales, conhecido anarquista, na hora de fazer literatura segue as diretrizes do esteticismo d’annunziano; Manuel Machado, ao regressar de Paris, explica-nos os fundamentos político-sociais da reação antimodernista; Maeztu, ideólogo ‘noventa-e-oitista’, combina o parnasiano e o social em sua poesia de juventude; Dicenta, representante do ‘naturalismo’ no teatro, identifica sua luta com a do esteticismo italiano, etc. Ou seja, nos primeiros anos do movimentonovo’, ambas as correntes não se contrapõem; pelo contrário, inclusive se complementam em certo sentido(15).

Por outro lado, a perspectiva exclusivamente estética atribuída por parte da crítica ao modernismo como forma de diferenciação em relação ao grupo de 98 é válida durante o período inicial do movimento. O “segundo modernismo hispânico tem como marca essencial a descoberta da linguagem e das paisagens cotidianas: “o modernismo havia povoado o mar de tritões e sereias, e os novos poetas viajam em barcos comerciais e desembarcam, não em Citéria, mas em Liverpool; os poemas não são cantos às cosmópolis passadas ou presentes, mas descrições bem mais amargas e reticentes de bairros de classe média; o campo não é a selva nem o deserto, mas o povo dos subúrbios(16).

De qualquer forma, a preocupação