1.
Sertões
Coração da gente -
o escuro, escuros.
Riobaldo
Segundo a narrativa
mítica do Gênesis, no jardim do
Éden o homem vivia
aquém do bem
e do mal, protegido
dos perigos da própria
vontade, pois
desconhecia a distinção entre ambos, o
que pode significar tanto que o bem e o mal não existissem quanto
que, existindo, o próprio
homem não
possuía faculdades de juízo para percebê-los. Mas ter consciência de algo
não é justamente
o que permite que
esse algo
seja “objetivado” pelo
nosso espírito?
Como dizer
que algo “existe”
se não existe para
nós, isto
é, se não é sensivelmente/cognitivamente
percebido por nós?
Assim sendo, parece-nos que o mito edênico propõe um
‘lugar’ paradisíaco
onde não
havia realmente bem
e mal, que
são objetivações de ações
humanas diante de situações
que demandam um
gesto consciente
e livre, o que
parece tornar plausível
a interpretação de que,
no Éden, o homem
ainda não
gozava plenamente de seu livre-arbítrio. Assim, consciência
e liberdade eram características
que estavam potencialmente
inscritas no humano, mas apenas se
manifestaram no momento em que ele decide desobedecer a uma
ordem expressa
de Deus:
Eis que o homem é como um de nós, sabendo
o bem e o mal;
ora, pois,
para que não estenda a sua
mão, e tome também
da árvore da vida,
e coma e viva
eternamente; o Senhor
Deus o lançou fora
do jardim do Éden,
para lavrar a
terra de que fora tomado. E havendo lançado fora
o homem, pôs querubins
ao oriente do jardim
do Éden, e uma espada
inflamada que andava ao redor, para guardar
o caminho da árvore
da vida (Gênesis 3:22-24, Bíblica
Sagrada).
Resta saber se a ‘escolha’
pela liberdade
poderia ter
sido feita sem
significar uma ‘escolha’
pelo mal,
isto é, será que
o mito expressa
a emancipação humana
- a possibilidade de decidir, de forma
que o comer
do fruto proibido
seja o paradigma dos riscos que a liberdade implica - ou
apenas a entrada
do Mal no mundo,
devido a uma decisão
‘ruim’? A interpretação
por que
optamos é a de que o mito edênico elabora
a emancipação do homem, que se
assume como agente
do seu próprio
pro-jeto(1) de vida.
Esta perspectiva é otimista, pois o comer do “fruto proibido”
significou um passo,
temerário talvez,
mas inegavelmente belo,
em direção
a uma maior autonomia
do humano. O mito
oferece indícios para
essa interpretação: por
que a árvore
estaria ali, no jardim
criado para
habitação da raça humana, se não
para que o humano ‘soubesse’ da possibilidade de “distinguir”
o bem e o mal?
A árvore estrategicamente disposta em sua plena visibilidade não
representava um desafio,
uma meta, uma provocação
à “maioridade” do humano?
Tal perspectiva implicará uma curiosa dubiedade na interpretação
do evento ‘expulsão
do paraíso’, pois,
se por um
lado isso
significa agora a vivência
consciente do mal,
por outro
lado indica a emancipação
humana, o “ter
que se virar”
pelos próprios
méritos, saindo de uma posição confortavelmente passiva
quanto à própria
existência. Afinal,
é justamente no “comer
do fruto proibido”
que o livre-arbítrio
humano se concretiza em ação.
É
interessante notar que
a expulsão do paraíso
teve, mais do que
um caráter
punitivo, um
aspecto preventivo e protetor:
“...para que
não estenda a sua
mão, e tome também
da árvore da vida,
e coma e viva
eternamente” (versículo 22). Parece que apenas após ter comido do fruto da árvore
do conhecimento é que
o homem poderia
‘reconhecer’ a árvore
da vida, com
a conseqüência de que,
caso o homem
comesse do seu fruto,
tornar-se-ia também imortal,
prolongando pela eternidade
esse estado
de criatura imperfeita,
na qual se inscreve a dicotomia do bem e do mal. O homem seria
então ético
e imortal, ao contrário
dos deuses, que
habitam o sagrado mundo
da indiferenciação e da indistinção, conforme
argumentação de Galimberti, para quem o mundo sagrado
dos deuses é “aquela reserva de toda
diferença, aquela indecifrabilidade
que os homens,
depois que dela
se separaram, perceberam ser seu
horizonte de procedência
e a mantiveram à distância, fora da sua comunidade” (GALIMBERTI, 2003, p. 16).
Umberto
Galimberti compreende a experiência
com o sagrado
a partir de uma perspectiva
antropológica e psicológica, onde o sagrado
seria não apenas
exterior, mas
também interno
ao homem, “seu
fundo inconsciente,
do qual um
dia a consciência
se emancipou e tornou autônoma,
sem contudo suprimir o cenário enigmático
e obscuro de sua origem”(IDEM, p. 12). O sagrado
seria uma espécie de loucura, não aquela
reconhecida pela psicanálise e psicologia,
que se caracteriza por
ser uma transgressão
da razão, mas
uma outra, que
é anterior à própria
distinção entre
razão e loucura:
Mas existe uma espécie
de loucura que
não é transgressão,
pelo simples
motivo que ela precede as regras
e as transgressões; a essa não conhecemos, porque
todo saber
pertence à ordem
da razão que
só pode encenar
seu discurso
tranqüilo quando
a loucura deixa
o palco, quando
a palavra é dada
à solução do conflito,
não à sua
explosão, à sua
ameaça (IDEM,
p. 13).
O
terreno do sagrado
é, portanto, o do indiferenciado,
onde não imperam
os princípios da lógica, da linguagem
cognoscente, da ética e das organizações sociais
e políticas. Em
oposição a ele,
o mundo do trabalho
e da razão se sustenta
sobre dois
alicerces lógicos:
os princípios da identidade
e não-contradição, que postulam
as seguintes premissas:
a)
para que
uma coisa seja isto é preciso
que ela
seja idêntica a si
mesma;
b)
uma coisa não
pode ser idêntica
a si mesma
(isto)
e, ao mesmo tempo,
ser outra
coisa (aquilo) que
é diferente de si.
É
dessa violência primária
que introduz a diferença
em meio
ao indiferenciado que a própria humanidade
pôde surgir; a partir
das operações da razão
que separa isto e aquilo criando
a diferença dos múltiplos significados
culturais, sociais e éticos. Esse é
um gesto violento porque
desloca a continuidade primordial
e intuitiva para uma pseudo-continuidade representacional
entre mundo e pensamento:
“O gesto da razão
é um gesto
violento, porque
dizer que
isto é isto e
não outra coisa, dizer que
o cavalo é o cavalo
e não o instinto,
o desejo, o ímpeto,
a fidelidade, o sacrifício,
a morte, é uma decisão
da razão e não
a verdade das coisas”(GALIMBERTI,
2003, p.15). A esse respeito
Octávio Paz ainda
dirá:
Desde Parmênides nosso
mundo tem sido o da distinção
nítida e incisiva
entre o que
é e o que não
é. O ser não
é o não ser.
Este primeiro desenraizamento
- porque foi como arrancar o ser do caos primordial - constitui o fundamento
de nosso pensar.
Sobre essa concepção
construiu-se o edifício das “idéias claras
e distintas”, que se tornou possível a história
do Ocidente, também
condenou a uma espécie de ilegalidade todas as tentativas
de prender o ser
por caminhos que não fossem
os desses princípios. Mística e poesia
viveram assim uma vida
subsidiária, clandestina
e diminuída (PAZ, 2003, p. 40).
O
homem, vivendo sobre
o signo da distinção,
articula sua existência
a partir do reconhecimento
das diferenças e do trato
com a alteridade,
e o interdito em
relação ao incesto
é exemplar para
entender a importância
do reconhecimento da diferença para a ordenação social. A
linguagem, a lógica,
a ética, a moral
e todas as demais instituições
humanas são frutos
dessa violência fundamental,
onde mesmo
a identidade aparece porque existe um
“outro”, um
“isto” que
continua em si
em meio
a outros “aquilo”.
Já o sagrado se rege pelo princípio do simbólico
(syn-ballein: do grego, lançar junto), onde os
deuses são
e não são,
obedecendo a regras distintas das
dos mortais, como
se vê na citação
abaixo de um
fragmento de Heráclito, em que o deus é identificado com
elementos paradoxais,
díspares, ressaltando como característica própria do sagrado
a impossibilidade de cerceá-lo em
sistemas conceituais ou
predicativos,
O
deus é dia
e noite, inverno
e verão, guerra
e paz, saciedade
e fome, e muda
como fogo
quando se mistura
a incensos, absorvendo de vez em quando os seus
aromas. O homem
toma por
justas umas coisas
e por injustas outras; para
o deus tudo
é belo, bom
e justo. (apud
GALIMBERTI, 2003)
Galimberti
lembrará da narrativa sagrada de Jó, o homem
justo que
se vê assolado por
diversas calamidades e lança diante da
face divina
seus lamentos
e angustiadas perguntas. É interessante
notar que suas perguntas
permanecem sem resposta,
ou melhor,
a ele é negada a legitimidade
de apresentar suas
questões. Conforme
apontado por Jack Milles (1997),
Deus responde a Jó com
o argumento - incontestável
- da sua soberania
e poder, tentando com
isso negacear
a pergunta que
havia sido feita, que
na verdade dizia respeito
à justiça divina,
a única das “propriedades”
divinas que estava em
questão. Parece que
a ‘personagem’ Deus
usa o truque,
bastante comum
entre os humanos,
de, quando sem
argumentos, tergiversar
e atacar o interlocutor,
pretendendo com isso
lançar uma nuvem
de fumaça que
o desoriente:
Onde estavas, quando
lancei os fundamentos da terra?
Dize-mo, se é que sabes tanto. Quem lhe fixou as dimensões
- se o sabes -, ou quem
estendeu sobre ela
a régua? Onde
se encaixam suas bases,
ou quem
assentou sua pedra
angular entre
as aclamações dos astros
da manhã e o aplauso
de todos os filhos
de Deus? Quem
fechou as portas do mar
quando irrompeu jorrando do seio materno;
quando lhe dei
nuvens como vestidos e espessas névoas
como cueiros;
quando lhe
impus os limites e lhe
firmei porta e ferrolhos,
[...] Entrastes pelas fontes
do mar, ou passeastes
pelo fundo
do abismo? Foram-te indicadas
as portas da morte, ou viste os porteiros
da terra da sombra?
Examinaste a extensão da terra?
Conta-me, se sabes tudo isso! (Livro de
Jó, 38: 4-18, Bíblia Sagrada, 1997)
Como se vê, a razão
humana não
pode pretender dar
conta da (des)razão
divina, e a comunicação
entre essas duas dimensões
- sagrada e humana
- será sempre tensa
e problemática. A violência
do sagrado, que
na verdade é a violência
da não-diferenciação (e, portanto,
não-civilização) será exteriorizada pelo homem e divinizada, manifestando-se de forma
exemplar na mitologia
grega, em
que os deuses
antropomorfizam desejos e sentimentos humanos
sem qualquer
exigência ética
ou moral.
Exteriorizar a violência
é salvaguardar a razão
humana, que
recua frente a violência
que vê
em si
mesma e da qual
se emancipou. Libertando-se do indiferenciado, a consciência
produz a diferença, que
é tanto constituída pelo
homem como
constituinte dele. Interditada,
a violência torna-se pharmakon,
o remédio/veneno
que cura
ou mata
dependendo das doses em que é ministrado.
Pondo-se à distância do sagrado, expulsando-se a si
mesmo do paraíso
mitológico do Éden,
o homem torna-se conhecedor
do bem e do mal,
torna-se ético, sem
que suas
ligações com
o divino sejam cortadas:
Maldito na comunidade
dos homens, o sagrado,
com toda
sua bagagem
de transgressões divinas, de
práticas sexuais
proibidas, de formas de violência e brutalidade, que toda a mitologia abriga
sem pudor
e sem reserva,
torna-se bendito quando
se transfere para o exterior.
Com essa expulsão
o homem é arrebatado à sua violência
que, divinizada, é posta
além do humano
como entidade
separada, como coisa
que diz respeito
aos deuses (GALIMBERT, 2003,
p. 17).
Se
a diferença é a condição
de possibilidade para a cultura
humana, o indiferenciado permanecerá
como aquele não-lugar
onde não
há distinção possível,
ou desejável. Diferente
dos homens, que
são ou
“isto” ou
“aquilo” e vivem sob
a imposição ética
de de-cidir (de-caedere, cortar) seu posicionamento enquanto
seres históricos
e contingentes, o sagrado
está além do bem
e do mal, abrangendo, como dirá Bataille, aspectos
fastos e nefastos (aqui
basta lembrar
os sacrifícios humanos
nas religiões arcaicas).
O
sagrado, portanto,
é aquele panorama
indistinto, aquela reserva de toda
diferença, aquela indecifrabilidade
que os homens,
depois que dela
se separaram, perceberam ser seu
horizonte de procedência
e a mantiveram distinta, fora da sua comunidade, no mundo
dos deuses, que
por isso
antecederam os homens. (...)
Freud deu a esse mundo
o nome de inconsciente,
e na escolha da palavra
já está o ponto
de vista de quem
observa de uma consciência alcançada
e pacificada. Os homens conheceram
o inconsciente na forma mais dramática
do divino e do sagrado
(GALIMBERT, 2003, p. 16).
Entretanto, se no Éden
a indistinção entre bem
e mal implicava uma impossibilidade
de de-cisão ética, significava
também ausência
de angústia e de sofrimento: é a infância da humanidade,
antes do corte
com a
Mãe amorosa,
que supre todas as necessidades
da criança (do homem)
em uma relação
simbiótica a que nada
falta, exceto
a própria falta
— a ausência, o desejo,
o pro-jeto. Instaurado o corte, e expulso do jardim,
resta ao homem
empreender a difícil
tarefa de domesticar
o inóspito sertão,
onde viver
será perigoso, porque
demandará sempre novos
cortes, novas
decisões que
implicarão um ethos que
precisará ser culturalmente legitimado.
2. Veredas
No
ano de 1995 a revista
italiana Liberal
publicou um diálogo
epistolar entre
o cardeal Carlo Maria Martini e
Umberto Eco, diálogo que foi posteriormente
publicado no livro de título Em que crêem os que
não crêem?, em
que também
está incluída uma posterior discussão
acerca dos temas
tratados por
outros seis
interlocutores, abrangendo dois jornalistas, dois filósofos e dois políticos. A quarta
missiva do Cardeal
Martini a Eco tinha
por título
a pergunta: “Onde o leigo encontra a luz
do bem?”. Nela, o Cardeal
Martini problematiza a possibilidade de uma ética
laica e não
apoiada em princípios
metafísicos universais,
na qual o homem
assumisse radicalmente a “responsabilidade” tanto
pela execução
das normas ético-morais quanto pela ‘construção’ e legitimação
das mesmas:
Tenho
dificuldades para
enxergar como
uma existência inspirada nestas
normas (altruísmo,
sinceridade, justiça,
solidariedade, perdão)
pode sustentar-se a longo prazo e em qualquer circunstância
se o valor absoluto
da norma moral
não está fundado
em princípios
metafísicos ou
em um
Deus pessoal
(ECO & MARTINI, 2003, p.
77).
As
respostas encenadas, tanto por Eco quanto pelos demais interlocutores, que
em menor
ou maior
grau discutirão a necessidade
de um diálogo
entre a ética
laica e a(s) religiosa(s),
são diversas, e bastante
interessantes. Entretanto, dada a limitação
de nosso estudo,
abordaremos a resposta de Eco (uma ética
que nasce quando
o “outro” entra em
cena) e a de Eugênio Scalfari (uma
ética “natural”,
“biológica”). O que pretendemos
é preparar o terreno para a entrada do jagunço Riobaldo, que
em sua
narrativa épica
irá encenar a angústia
do humano diante
da necessidade de tomar
decisões éticas,
porque livres.
Parece-nos que a própria
insistência de Riobaldo em “ter certeza” da não-existência do Diabo
e da não-validade do pacto feito
com o mesmo
é indicativo de que
ele reluta entre
o assumir definitivamente
a responsabilidade por
suas ações/decisões ético-morais e a tendência
a delegar a outro
- nesse caso ao Diabo
- tal responsabilidade.
Antes porém de ouvir
o jagunço Riobaldo, percorreremos
algumas veredas trilhadas por outros pensadores em
sua tentativa de compreender os fundamentos
para uma ética
e uma moral na sociedade
contemporânea. Inicialmente
é preciso ressaltar
que a perspectiva
que adotamos é a de uma ética laica e
historicizada, em outras palavras, sem
valores absolutos.
Desta forma, tomaremos a pergunta
inicial do Cardeal
Carlo Maria Martini - “onde o leigo encontra
a luz do bem?”
- como uma provocação
autêntica que
se propõe a qualquer investigação sobre
as possibilidades e limites de
uma ética laica. É
preciso lembrar que apenas o homem é um animal ético,
e portanto é o único
capaz de ações
que podem ser
consideradas “boas” ou “más” de
acordo com um código de valores vigente. Ao homem
humano foi dada,
como um
presente ou
condenação, a capacidade
de se “descolar” do momento
vivido e se projetar
no tempo (o passado
como memória
social e pessoal
acumulada, o futuro
como expectativa
compartilhada, o presente como
mediação entre ambos),
de modo que
ele age ‘sabendo’ que
‘sabe que age’. Logo,
ele é moral.
Logo, pode ser
mau, de uma forma
que os tubarões
e as hienas selvagens
não o podem. Mas
também pode ser
“bom”, no sentido
em que
suas ações
sejam gratuitas, “descompromissadas” com
seus interesses
pessoais e imediatos.
Na
perspectiva de uma ética
laica Umberto Eco
propõe uma ética baseada
na consciência do outro,
pois entende que
é “o outro,
é seu olhar,
que nos define
e nos forma”
(p. 83), enfatizando com isso o aspecto sócio-cultural
da existência humana; afinal,
diz-nos Eco, “Mesmo
quem mata,
estupra, rouba,
espanca, o faz em momentos
excepcionais, e pelo
resto da vida
lá estará a mendigar
aprovação, amor,
respeito, elogios
de seus semelhantes”
(p. 83). Com isso
Eco nega
qualquer maniqueísmo ou
essencialismo, por afirmar
que o bem
e o mal são
conseqüências de ações
pragmáticas, historicamente inscritas,
e não entidades
metafísicas, de existência
independente a uma objetivação
humana. O imperativo
de uma ética do outro
nasce da constatação de que a necessidade
da con-vivência é aquilo que nos determina
enquanto espécie:
“poderíamos morrer ou
enlouquecer se vivêssemos em
uma comunidade na qual,
sistematicamente, todos tivessem
decidido não nos olhar jamais ou comporta-se
como se não
existíssemos” (p. 84). Para Eco,
a solidariedade para
com o outro
é uma possibilidade de dar sentido
à própria existência
que se abre para
aqueles que
nunca tiveram a experiência
da transcendência, ou a perderam, pois na “tentativa de garantir a alguém uma vida
vivível, mesmo depois
que ele
mesmo já
tenha desaparecido” (p. 85) o homem
poderá encontrar o sentimento
de eternidade que
geralmente é o que
o conduz à experiência religiosa.
Diante da contestação
de que não
são todos
que se preocupam em
dar sentido
à própria morte,
Eco argumenta
que, mesmo
entre aqueles
que crêem, existem os que não se questionam
quanto à validade
das suas ações
morais e éticas;
ainda que
esses sejam maioria,
isto não
traz problemas para
se fundamentar uma ética
da alteridade, pois
“a força de uma ética
julga-se através do comportamento
dos santos, não
dos insipientes cuius deus venter est” (p. 85). Eco
ainda destaca a necessidade
do diálogo entre
essas duas posturas éticas:
a religiosa e a laica,
e as ‘negociações’ de sentido aqui seriam similares
ao que ocorre entre
duas religiões, imbuídas do sentimento de mútuo
respeito: “E nos
conflitos de fé
devem prevalecer a Caridade
e a Prudência” (p. 90).
Um outro autor
que irá buscar
os fundamentos éticos
em uma espécie
de solidariedade entre
indivíduos sociais
é o filósofo Thomas Nagel (2001), que
a partir de uma brilhante argumentação acerca
da relatividade dos sistemas éticos e morais,
discute o que leva,
mesmo o mais
impiedoso criminoso,
a reconhecer que
determinadas ações são
“corretas” e outras “erradas”. Ainda
quando essa distinção
não sai do âmbito
teórico, e a prática
desse suposto “homem
mau” seja contraditória
com determinados
valores aceitos pelo
mesmo, ele
reconhece que algumas atitudes são ilegítimas,
pelo menos
no sentido kantiano de que tais ações não devam
ser universalizadas. Para
Nagel, a sociedade humana
se estrutura a partir
de um acordo
tácito que
manda que
cada indivíduo
se comprometa, pelo menos
em certa
medida, com
as demais.
É
claro que
a maioria das pessoas
se importa, em certa
medida, com
as demais. Mas,
se alguém não
se preocupa, não concluiríamos
que ele está isento da moral.
Uma pessoa que
mata outra
apenas para roubar-lhe a carteira, sem
se importar com
a vítima, não
está automaticamente justificada. O fato
de ela não
se importar não
legitima sua ação:
ela deveria se importar.
Mas por
que deveria se importar?
(2001, p. 66)
Dentre as tentativas
de responder essa pergunta,
Nagel aponta as seguintes: a) as motivações religiosas, que podem variar desde o “medo” de um castigo divino até o amor, que levaria
o fiel a se identificar
com um
Deus amoroso
e querer “imitá-lo”; b) a expectativa de que
se leve “vantagem”
na ação moral,
isto é, nesse argumento
a ação moral
será tomada pela
expectativa de que,
ao se agir de forma
correta com alguém se receba o mesmo
tipo de tratamento
“correto” não
apenas dele como
também de outros
circunvizinhos; c) o argumento racional da busca
de coerência entre
o que se espera
para si
e a forma de agir para
com o outro,(2)
classicamente ilustrado pela pergunta: “você gostaria que fizessem o mesmo
com você?”
Nagel
irá apontar problemas
em todos
esses argumentos
citados. Em relação
à motivação religiosa,
ele rebate
afirmando que os fundamentos
éticos não
podem atender apenas
àqueles que
crêem em um
Deus, afinal
esses não
são os únicos
que deverão se submeter
a tais princípios.
Mais ainda,
a proibição divina
acerca de algo
não faz dele algo
errado, apenas desaconselhável:
“Se Ele proibisse, por
exemplo, de calçar
a meia esquerda
antes da direita,
e o punisse por não
agir assim,
seria desaconselhável fazê-lo, mas
não seria errado” (p. 67). Uma outra
ressalva quanto a esse
tipo de motivação é que
o medo do castigo
ou a esperança
da recompensa não
parecem ser motivos
legítimos para
se fundamentar a moral.
O
segundo tipo
de motivação é a intenção de algum tipo de
recompensa que
possa se ter na prática
de uma ação moral
correta. A esse
respeito é bastante
esclarecedora a fala de uma das
personagens de Eça de Queiroz no romance
Os maias; é o avô de Carlos Maia,
que quando
questionado pela
sua decisão
de dar ao neto
uma educação laica
afirma: “Eu quero que
ele seja bom
por amor
à bondade, que
seja verdadeiro por
amor à verdade,
e justo por
amor à justiça,
e não por
medo do inferno
ou desejo
de alcançar um
paraíso extraterreno”.(3)
Ainda quanto
a essa motivação bancária, Nagel
argumenta que
essa “Não é uma razão
para fazer o que é certo se
os outros não
vão saber,
ou contra fazer o que é errado
se você pode escapar
impune (como atropelar alguém e fugir)” (p. 68).
O
terceiro tipo
de motivação, a busca de coerência entre
o que se deseja
para si
e o que se faz ao outro,
pressupõe uma razão para
que algo
que não
desejo que
seja feito a mim
(o exemplo que
o autor dá é o de alguém
que tem seu
guarda-chuva roubado em
um dia
de chuva) seja considerado “ruim” quando feito a qualquer
outra pessoa,
inclusive se eu
for o agente da ação.
É
uma questão de simples
coerência. Ao admitir
que outra
pessoa teria uma razão
para não
prejudicá-lo em circunstâncias
semelhantes e ao admitir
que a razão
que ela
teria é muito geral
e não se aplica somente
a você, ou
a ela, então por uma questão de coerência, você teria de admitir que a mesma razão se
aplica a você agora
(p. 70).
Muito embora contra
esse argumento
possam se levantar os que
digam que, apesar
de não gostarem de sofrer
uma ação ruim
(serem roubados, por exemplo), não
vêem nenhum motivo
especial para
que o autor
da ação (o ladrão)
considere os seus sentimentos.
Nagel argumenta que
a maior parte
dos indivíduos em
sociedade “pensaria que
seus interesses
e os danos que
possam sofrer dizem respeito
a todos, não
apenas a si
mesmas - o que dá aos outros uma razão
para se importarem com
eles também” (p. 70). A partir
disso o autor propõe que as bases da
moral estão em
uma espécie de sentimento
de “solidariedade” entre
os sujeitos sociais,
que, ainda
quando tomam atitudes
moralmente duvidosas, não pretendem que
tais ações
sejam legitimadas e universalizadas, vindo eles
a sofrer ações
semelhantes às que
praticaram. Essa última proposta de fundamento
para o agir ético-moral
se origina no desejo de Nagel demonstrar que a motivação
moral pode ser
desvinculada tanto das preocupações religiosas (e com
isso atingir
a todos, inclusive
os não-religiosos) quanto das motivações
baseadas em interesses
próprios (sentir-se bem
por ter
feito o que se
considera “correto” ou
não querer
sentir-se culpado por não tê-lo feito).
Mas muitos são
os problemas que
nem sequer
foram tocados: a relatividade da moral;
(4) a aceitação
(ou não)
e determinação de alguns
valores universais
(mas quais
seriam eles?); a organização,
em nível
hierárquico, de nosso comprometimento com
os demais (meus
interesses pessoais,
família, amigos,
comunidade |