A Miopia de Miguilim (1)
Erich Soares Nogueira (*)

É bastante conhecido o fato da obra de João Guimarães Rosa, através da trajetória ou experiência de suas personagens, privilegiar um conhecimento de mundo que se coloca na ordem do irracional. Ler Guimarães Rosa é, a todo momento, sentir uma abertura em direção ao mágico, ao transcendente, ao poético, a algum elemento, enfim, que não se deixa de todo apreender. Tal processo, apesar de ser evidente, nunca é simples ou óbvio, na medida em que se faz no entrelaçamento de todos os níveis da narrativa, desde seu plano temático mais geral, até as peculiaridades de uma linguagem conscientemente trabalhada pelo escritor. Desde Sagarana, o universo do irracional se faz presente, e terá um espaço cada vez maior na obra do autor, como atesta o livro Caos e Cosmos, de Suzi Sperber (1976). De modo geral, é tal a força desse campo dito um tanto selvagem que, ao ser referido nos textos de crítica literária, recebe definições bastante variadas. É notória, aliás, a quantidade de termos e conceitos que o cercam - é denominado primitivo, fantástico, pré-lógico, natural, pré-social, arquetípico, marginalizado, instintivo, sensitivo, etc...

Aqui, pretendemos também discutir uma determinada forma de conhecimento que se dá por outras vias que não a da razão. Trata-se da percepção sensorial. Mais detidamente, faremos uma leitura da novelaCampo Geral”, aproximando-nos da experiência do visível dada pelo conhecido olhar míope de Miguilim –, mas também de uma experiência atravessada por todos sentidos do corpo. Na medida em que a perspectiva de um narrador em terceira pessoa tende a diluir-se na perspectiva dessa personagem, deseja-se também indicar a relação entre a experiência sensorial (o contato entre o corpo do menino e o corpo do mundo) e uma experiência no interior da própria linguagem: a experiência poética (que também se concretiza numa aproximação radical, convocada pelo texto de Rosa, entre o corpo da linguagem e o corpo do leitor).


A novelaCampo geral” (publicada em 1956) narra a experiência de uma personagem infantil – Miguilim – em sua relação com a natureza e com o mundo adulto. Ao lado do irmão Dito, Miguilim estará preludiando toda uma “curiosa estirpe de personagens (...) à qual pertencem infantes de extrema perspicácia e aguda sensibilidade(2), tão presentes em um livro como Primeiras estórias, de 1962. Também quanto ao narrador, a novela antecipa uma perspectiva narrativa que ganhará maior evidência em Primeiras estórias, ou seja, a de um narrador em terceira pessoa cuja objetividade e distanciamento se perdem porque adere à perspectiva da criança. Em ambos os casos, interessa a Guimarães Rosa trazer para o centro da narrativa a visão pouco ou nada racional daqueles que, no dizer de Paulo Rónai, “ainda tropeçam nos pedregulhos da palavra ou se deslumbram com a sua cintilação, embrenham-se com olhos virgens nos mistérios do mundo e voltam com excitantes descobertas.”(3). A estória, não podendo ser efetivamente narrada pela criança, pede a criação desse entremeio, lugar mesmo de reversibilidade entre narrador e personagem, onde as diferenças tendem a se apagar. Diz-se “tendem”, pois as construções formais, como aponta Rónai(4), não são propriamente as da criança, mas de um narrador que a por dentro”.

Antes de discutirmos propriamente alguns aspectos relativos à miopia de Miguilim, trabalharemos com uma passagem que está logo nas primeiras páginas da novela. Isto porque se trata de um momento fundamental na constituição da personagem Miguilim, quando vemos recuperadas as experiências sensoriais mais remotas de sua infância. A passagem é a seguinte:

 

[Miguilim]Tinha nascido ainda mais longe, também em buraco de mato, lugar chamado Pau-Roxo, na beira do Saririnhém. De , separadamente, se recordava de sumidas coisas, lembranças que ainda hoje o assustavam. Estava numa beira de cerca, dum quintal, de onde um menino-grande lhe fazia caretas. Naquele quintal estava um peru, que gruziava brabo e abria roda, se passeando, pufo-pufo – o peru era a coisa mais vistosa do mundo, importante de repente, como uma estória – e o meninão grande dizia: — “ É meu!...” E:  — “É meu...” – Miguilim repetia, para agradar ao menino-grande. E o menino-grande levantava com as duas mãos uma pedra, fazia uma careta pior: “Aãã!...” Depois, era uma confusão, ele carregado, a mãe chorando: “—Acabaram com  o meu filho!...” – e Miguilim não podia enxergar, uma coisa quente e peguenta escorria-lhe pela testa, tapando os olhos. Mas a lembrança se misturava com outra, de uma vez em que ele estava nu, dentro da bacia, e seu pai, sua mãe, Vovó Izidra e Vó Benvinda em volta; o pai mandava: — “Traz o trem...” Traziam o tatu, que guinchava, e com a faca matavam o tatu, para o sangue escorrer por cima do corpo dele para dentro da bacia. — “Foi de verdade, Mamãe?” – ele indagara, muito tempo depois; e a mãe confirmava: dizia que ele tinha estado muito fraco, saído de doença, e que o banho do sangue vivo do tatu fora para ele poder vingar. Do Pau-Roxo conservava outras recordações, tão fugidas, tão afastadas, que até formavam sonho. Umas moças, cheirosas, limpas, os claros sorrisos bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, de uma xícara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava à claridade. Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha. (p.16-17)(5)

 

Esse trecho, como um todo, aponta para um conjunto de experiências, sobretudo sensórias, que têm um certo impacto sobre Miguilim e, por isso mesmo, anuncia elementos temáticos importantes que serão desenvolvidos no decorrer da narrativa: a doença que pode levar à morte (Miguilim achará que está ‘doente de morte’, Dito morre de tétano, o próprio Miguilim fica verdadeiramente doente); a morte de bichos (há repetidas cenas de caça, em especial do tatu);  a importância da estória (criação que vem aliada à percepção sensorial); e a alegria guardada nos elementos da natureza (a alegria será ensinamento central da narrativa, transmitido pelo Dito). É interessante sublinharmos que o anúncio dessa série de temas vem marcado justamente nas lembranças mais antigas de Miguilim. Essas lembranças remetem a experiências cuja localização no tempo é bastante imprecisa, o que parece inseri-las numa outra ordem, despregando-as de um contexto determinado e as construindo como núcleos existenciais, cuja força intervém continuamente na vida do menino.

A própria cor vermelha, como veremos, vai se repetindo, em diferentes formas, constituindo-se, pouco a pouco, como índice sensorial de forte valor simbólico. A depender do contexto, poderá inclusive deslizar para um sentido contrário à alegria que, na passagem acima, as frutinhas vermelhas exalam. Vê-se, por exemplo, numa intencional e expressiva criação de Guimarães Rosa, a cruelalegria avermelhada” dos vaqueiros que matam os tatus, da qual Miguilim intui a existência do Mal(6).

Seguindo mais detidamente a passagem selecionada, a primeira sensação que as tais lembranças despertam em Miguilim é de susto: são as “sumidas coisas que reaparecem e queainda hoje o assustavam”. está incluído o sentimento de medo, explicado pela violência repentina do menino-grande. No entanto, prosseguindo a leitura do texto, descobrimos que o susto que primeiramente aparece é, na verdade, o que nasce de um olhar: num quintal, Miguilim se espanta com um peru que abre roda e se passeia, “pufo-pufo”. A expressão, que parece ser onomatopaica, trazendo um som abafado de penas e concentrando o andar do peru, carrega e transmite, através do próprio relevo sensório da palavra, a impressão mais forte do menino. Lidamos, assim, com um momento privilegiado da percepção em que há a descoberta do ‘novo enquanto experiência sensorial da personagem e enquanto experiência da linguagem. Talvez a matriz desse princípio que move toda a obra de Rosa esteja no clássico episódio do “rol de reis”, do contoSão Marcos” (Sagarana). , parece ser o próprio autor a nos dizer que uma percepção inédita - um angelim que atira para cima cinqüenta metros de tronco e fronde – alia-se à criação do vocábulo novo, inédito. A palavra, nesse caso, com seu ileso gume, com seu corpo de palavra apenas nascido, convoca fortemente o corpo do leitor na elaboração de um possível sentido para a descoberta. Aqui, na passagem de “Campo geral”, vemos que a linguagem se adensa numa expressão delicadamente infantil (pufo-pufo), reverberando com seu corpo sonoro, visual e de um lúdico movimento, a experiência sensorial da personagem e, ao mesmo tempo, convocando-nos a fazer uma leitura via sensoriedade da palavra. Dá-se então algo como umentrelaçamento” numa mesmacarne”, como diria o filósofo Merleau-Ponty (1975), entre o nosso corpo, o corpo da palavra, e o de uma personagem infantil plenamente imersa no corpo do sertão rosiano. Diz-se que tal experiência é de ordem poética, justamente porque, em Guimarães Rosa, a apreensão lírica do texto corresponde a esse momento - sempre inaugural - de ‘corpo a corpo com palavra, seja ela um neologismo, seja uma palavra por nós reconhecida, mas cujo sentido foi reaberto pelo trabalho literário.

Prosseguindo nossa leitura, temos ainda que junto à lembrança do peru, surge primeiramente a imagem de um menino-grande com uma pedra e uma careta, depois os sons de “Aãã!...” e do choro da mãe pelo filho machucado. Miguilim não pode mais enxergar - “uma coisa quente e peguenta escorria-lhe da testa, tapando-lhe os olhos” – e a sensação tátil do sangue sobre o rosto evoca uma outra lembrança, a do banho com sangue de tatu. É quando a imagem do sangue, nesta cena em que o perigo de morte é iminente, elabora simbolicamente a passagem da morte para a vida: afinal, do sangue de um ferimento e do sangue de um tatu morto à faca, chega-se ao “sangue vivo” usado para superar a doença (uma ameaça de morte) e afirmar definitivamente a vida de Miguilim.

É também para esse sentido forte de superação da morte que as lembranças mais remotas do menino vão então contribuir. Assim, temos que as primeiras impressões que Miguilim guarda do mundo formam umsonho”, palavra que resume o conjunto de recordações e sugere, na origem primeira da personagem, a predominância da vida. As sensações recuperadas vão compondo, por fragmen