Na
Europa, as
projeções
e os
brinquedos
óticos
criaram no
século
XVII
um
novo
ofício
de pouquíssimo
ganho,
o do lanternista
ambulante,
maltrapilho
do
entretenimento
que
ia de
vilarejo
em
vilarejo,
com
sua
caixa
amarrada às
costas,
mostrando
imagens
diversas,
por
vezes
acompanhado
de
um
macaco
ou
de uma ‘marmota
viva’.
Erravam pelas
ruas
gritando
seus
pregões,
estimulando a
curiosidade
através
de chamamentos
criativos.(1)
O lanternista
geralmente
levava
um
auxiliar
para
acompanhamento musical,
com
uma
sanfona
e
um
realejo.
Podia se
encarregar
da
totalidade
da
função,
enquanto
mantinha
viva
a
atenção
do
espectador
manipulando simultaneamente os
mecanismos
de
sua
lanterna,
recitando
textos
explicativos
e tocando alguma
música.
Conforme
o
século
XIX vai se aproximando, as
invenções
tornam-se
mais
portáteis,
com
lentes
melhor
polidas e
mecanismos
diversos,
o
que
sempre
resulta
em
uma
nova
denominação
do
aparato:
cosmorama,
lanterna
mágica,
fenaquistiscópio, lampascope, betamiorama, giorama, pleorama, ilana,
diorama, fantascópio, tornando
difícil,
especialmente
para
os
que
se interessam
pelo
assunto,
descobrir
nas
fontes
o
específico
de
cada
uma das
peças
arqueológicas. O
certo
é
que,
no Brasil,
tanto
panorama,
quanto
cosmorama
vão
designar,
na
maioria
das
vezes,
uma
caixa
ótica
simples,
que
possibilitava a
um
ou
mais
espectadores
assistirem
em
seu
interior
a
paisagens
e
caricaturas,
pintadas
em
vidros
e iluminadas
por
vela
ou
gás,
e potencializadas
por
espelhos.
Outro
nome
pelo
qual
ficou
conhecido
o
divertimento
na
Corte
brasileira
foi “marmota”,
já
que
os lanternistas do
Velho
Mundo,
além
do
aparelho,
levavam
consigo
em
suas
peregrinações
o
curioso
roedor,
só
encontrado
em
regiões
frias.
No
calor
dos
trópicos,
o
animal
ficou
só
como
mais
uma das
imagens
pitorescas trazidas
com
os
imigrantes
que
aqui
chegavam
para
encantar
os
brasileiros
com
luminescências.
Segundo
as
pesquisas
de Alice Gonzaga, o
primeiro
cosmorama instalado no
Rio
de
Janeiro
foi o do
espanhol
José Felix Moniz,
em
1º. de
fevereiro
de 1834, na
rua
da
Cadeia,
sendo transferido
alguns
meses
depois
para
a
rua
do
Ouvidor.
O
empresário
não
tinha
visto
de
permanência,
sendo possivelmente
seu
aparelho
“comprado
por
Francisco Passarolo e Luís Dancase,
que
apareceram
com
um
“cosmoprograma”(2) na
mesma
rua,
mais
ou
menos
um
ano
depois.
A
década
de 1830, do
que
se pode
presumir
a
partir
da
análise
de algumas
licenças
solicitadas à
Câmara
Municipal, foi
rica
nos
pedidos
e autorizações
para
comercialização
das
diversões
óticas
nos
logradouros
da
capital.
Em
sua
maioria
eram
estrangeiros,
que
vinham
tentar
a
sorte
nos
trópicos.(3)
Em
31 de
julho
de 1834, Francisco Orsini, de
nação
sardo,
também
pede autorização
para
abrir
uma
armazém
com
cosmorama no
Beco
de
Santa
Rita.(4)
E
em
27 de
junho
de 1835 deu-se a
súplica
de
um
brasileiro,
ou
português,
Antônio Teixeira dos
Santos.(5)
Os
pedidos
continuarão sendo
feitos
durante
a
década
de 1840, atravessando
todo
o
século
XIX, acumulando
negativas
da
parte
das
autoridades,
geralmente
intransigentes
com
o
trabalho
de
ambulantes
ou
com
a
montagem
de
barracas
para
a
realização
de
espetáculos.(6)
Aqueles
que
queriam
ingressar
neste
mercado
arriscado,
sujeito
às
instáveis
tentativas
de regularização do setor,
poderiam
encontrar
as
invenções
óticas
com
facilidade
nas inúmeras
casas
e
armazéns
de
ótica
disponíveis,
especialmente,
a partir
de
meados
do oitocentos, no
centro
comercial
do Rio
de
Janeiro.
A
casa
mais
tradicional,
que
atravessou praticamente
todo
o
século
XIX, eram as
Oficinas
e
armazém
d’ótica
e
instrumentos
científicos,
criada
pelo
empresário
José Maria dos
Reis.
Além
da
venda
de “fantasmagorias”, a
casa
garantia
a
manutenção
e o conserto
de
todos
os
instrumentos
e
inventos
por
ela
comercializados.
Em
1856, tem-se notícia
da casa
de João José de Faria & irmão,
na rua
do Ouvidor,
79, que
vendia Polyorama, panopticos e diagraphos, “com
as vistas
dos principais
monumentos
da Europa, e as batalhas
da Criméia”, etc.(7) Neste
mesmo
ano,
na rua
da Alfândega,
Agostinho de Souza Neves
e C., além
de “luneta
de um
e dois
vidros,
óculos
para
teatro
de tartaruga,
madrepérola,
marfim,
porcelana,
búfalo
e metal”,
fazia instrumentos
para
uso
de “fantasmagoria”.(8) O
número
destes estabelecimentos
foi bastante
expressivo
durante
o período,
provendo continuamente o interesse
– e a necessidade
– do homem
do oitocentos pelas novidades
óticas.
No
século
XIX, qualquer
comparação entre
literatura
e projeção
de imagens,
portanto,
não
seria mero
capricho
metafórico.
O escritor,
que
disponibilizava sua
escrita
a quem
se dispusesse a lhe
pagar
alguns
vinténs,
guardava muitas semelhanças
com
o “marmoteiro”, que
pelo
mesmo
motivo
acionava seu
mecanismo
ótico
onde
os curiosos
habitantes
da Corte
vinham colocar
os olhos.
O trabalho
de ambos
era
o de exibir
as “vistas”
de uma cidade
em
processo
de fragmentação
escópica, chamar
a atenção
para
os tipos,
situações
e paisagens
notáveis
no cotidiano.
A literatura
brasileira
logo
encontraria nas ruas
uma fonte
de inesgotáveis
possibilidades dialógicas.(9)
Há
um
enorme
potencial
ótico
estacionado sobre
aquelas folhas
quebradiças. Colabora o fato
de muitos
exemplares
possuírem títulos
que
remetem diretamente
ao universo
das invenções
óticas – marmota,
cosmorama, luneta,
etc – mas
são,
sobretudo,
os artifícios
narrativos utilizados na realização
do texto,
o que
torna
a leitura
um
exercício
de suma
importância
para
que
se entenda as complexidades envolvidas na absorção
desses objetos
tanto
pelo
cotidiano
da Corte,
quanto
por
uma escrita
cada
vez
mais
atenta
à linguagem
das ruas,
adaptando-se rapidamente aos caprichos
de uma burguesia
pequenina,
mas
ruidosa.
A história
da imprensa,
como
observou Nelson Werneck Sodré, “é a própria
história
do desenvolvimento
da sociedade
capitalista”.(10)
Como
tal,
para
completar
o cenário
desta opereta
iniciática ocorrida no Rio
de Janeiro
oitocentista, a máquina
movimentando tudo:
expelindo fumaça,
multiplicando
a escrita,
projetando demônios.
Na
França, a imagem
do lanternista esteve, desde
a revolução,
ligada
à propaganda
do ideário jacobino, sendo inclusive
utilizada por
muitos
de seus
expoentes,
como
Marat e Mirabeuau. Nos
inúmeros panfletos
anônimos
editados a partir
de 1789, os projecionistas de lanterna
mágica
apareciam nos
textos
sempre
desferindo debochados ataques
à nobreza, como,
por
exemplo,
na brochura
clandestina
A lanterna
mágica
da França, novo
espetáculo
da feira
de Saint-Germain,
onde
a vida
de Charles
Alexandre de Calonne, Ministro
das Finanças do Antigo
Regime,
foi totalmente
devassada em
“vistas”
grotescas e indiscretas, exibidas por
artistas
ambulantes
e descritas minuciosamente
pelo
narrador: