Esse mundo é Cosmorama
Guilherme Sarmiento(*)

Na Europa, as projeções e os brinquedos óticos criaram no século XVII um novo ofício de pouquíssimo ganho, o do lanternista ambulante, maltrapilho do entretenimento que ia de vilarejo em vilarejo, com sua caixa amarrada às costas, mostrando imagens diversas, por vezes acompanhado de um macaco ou de uma ‘marmota viva’. Erravam pelas ruas gritando seus pregões, estimulando a curiosidade através de chamamentos criativos.(1) O lanternista geralmente levava um auxiliar para acompanhamento musical, com uma sanfona e um realejo. Podia se encarregar da totalidade da função, enquanto mantinha viva a atenção do espectador manipulando simultaneamente os mecanismos de sua lanterna, recitando textos explicativos e tocando alguma música. 

Conforme o século XIX vai se aproximando, as invenções tornam-se mais portáteis, com lentes melhor polidas e mecanismos diversos, o que sempre resulta em uma nova denominação do aparato: cosmorama, lanterna mágica, fenaquistiscópio, lampascope, betamiorama, giorama, pleorama, ilana, diorama, fantascópio, tornando difícil, especialmente para os que se interessam pelo assunto, descobrir nas fontes o específico de cada uma das peças arqueológicas. O certo é que, no Brasil, tanto panorama, quanto cosmorama vão designar, na maioria das vezes, uma caixa ótica simples, que possibilitava a um ou mais espectadores assistirem em seu interior a paisagens e caricaturas, pintadas em vidros e iluminadas por vela ou gás, e potencializadas por espelhos. Outro nome pelo qual ficou conhecido o divertimento na Corte brasileira foi “marmota”, que os lanternistas do Velho Mundo, além do aparelho, levavam consigo em suas peregrinações o curioso roedor, encontrado em regiões frias.  No calor dos trópicos,  o animal ficou como mais uma das imagens pitorescas trazidas com os imigrantes que aqui chegavam para encantar os brasileiros com luminescências. 

Segundo as pesquisas de Alice Gonzaga, o primeiro cosmorama instalado no Rio de Janeiro foi o do espanhol José Felix Moniz, em 1º. de fevereiro de 1834, na rua da Cadeia, sendo transferido alguns meses depois para a rua do Ouvidor. O empresário não tinha visto de permanência, sendo possivelmente seu aparelho “comprado por Francisco Passarolo e Luís Dancase, que apareceram com um “cosmoprograma”(2) na mesma rua, mais ou menos um ano depois. 

A década de 1830, do que se pode presumir a partir da análise de algumas licenças solicitadas à Câmara Municipal, foi rica nos pedidos e autorizações para comercialização das diversões óticas nos logradouros da capital. Em sua maioria eram estrangeiros, que vinham tentar a sorte nos trópicos.(3) Em 31 de julho de 1834, Francisco Orsini, de nação sardo, também pede autorização para abrir uma armazém com cosmorama no Beco de Santa Rita.(4)  E  em 27 de junho de 1835 deu-se a súplica de um brasileiro, ou português, Antônio Teixeira dos Santos.(5) Os pedidos continuarão sendo feitos durante a década de 1840, atravessando todo o século XIX, acumulando negativas da parte das autoridades, geralmente intransigentes com o trabalho de ambulantes ou com a montagem de barracas para a realização de espetáculos.(6) 

Aqueles que queriam ingressar neste mercado arriscado, sujeito às instáveis tentativas de regularização do setor, poderiam encontrar as invenções óticas com facilidade nas inúmeras casas e armazéns de ótica disponíveis, especialmente, a partir de meados do oitocentos, no centro comercial do Rio de Janeiro. A casa mais tradicional, que atravessou praticamente todo o século XIX, eram as Oficinas e armazém d’ótica e instrumentos científicos, criada pelo empresário José Maria dos Reis. Além da venda de “fantasmagorias”, a casa garantia a manutenção e o conserto de todos os instrumentos e inventos por ela comercializados. 

Em 1856, tem-se notícia da casa de João José de Faria & irmão, na rua do Ouvidor, 79, que vendia Polyorama, panopticos e diagraphos, “com as vistas dos principais monumentos da Europa, e as batalhas da Criméia”, etc.(7) Neste mesmo ano, na rua da Alfândega, Agostinho de Souza Neves e C., além de “luneta de um e dois vidros, óculos para teatro de tartaruga, madrepérola, marfim, porcelana, búfalo e metal”, fazia instrumentos para uso de “fantasmagoria”.(8) O número destes estabelecimentos foi bastante expressivo durante o período, provendo continuamente o interesse – e a necessidade –  do homem do oitocentos pelas novidades óticas. 

No século XIX, qualquer comparação entre literatura e projeção de imagens, portanto não seria mero capricho metafórico. O escritor, que disponibilizava sua escrita a quem se dispusesse a lhe pagar alguns vinténs, guardava muitas semelhanças com o “marmoteiro”, que pelo mesmo motivo acionava seu mecanismo ótico onde os curiosos habitantes da Corte vinham colocar os olhos. O trabalho de ambos era o de exibir as “vistas” de uma cidade em processo de fragmentação escópica, chamar a atenção para os tipos, situações e paisagens notáveis no cotidiano. A literatura brasileira logo encontraria nas ruas uma fonte de inesgotáveis possibilidades dialógicas.(9) 

um enorme potencial ótico estacionado sobre aquelas folhas quebradiças. Colabora o fato de muitos exemplares possuírem títulos que remetem diretamente ao universo das invenções óticas – marmota, cosmorama, luneta, etc –  mas são, sobretudo, os artifícios narrativos utilizados na realização do texto, o que torna a leitura um exercício de suma importância para que se entenda as complexidades envolvidas na absorção desses objetos tanto pelo cotidiano da Corte, quanto por uma escrita cada vez mais atenta à linguagem das ruas, adaptando-se rapidamente aos caprichos de uma burguesia pequenina, mas ruidosa. A história da imprensa, como observou Nelson Werneck Sodré, “é a própria história do desenvolvimento da sociedade capitalista”.(10) Como tal, para completar o cenário desta opereta iniciática ocorrida no Rio de Janeiro oitocentista, a máquina movimentando tudo: expelindo fumaça, multiplicando a escrita, projetando demônios. 

Na França, a imagem do lanternista esteve, desde a revolução, ligada à propaganda do ideário jacobino, sendo inclusive utilizada por muitos de seus expoentes, como Marat e Mirabeuau. Nos inúmeros panfletos anônimos editados a partir de 1789, os projecionistas de lanterna mágica apareciam nos textos sempre desferindo debochados ataques à nobreza, como, por exemplo, na brochura clandestina A lanterna mágica da França, novo espetáculo da feira de Saint-Germain, onde a vida de Charles Alexandre de Calonne, Ministro das Finanças do Antigo Regime, foi totalmente devassada emvistas” grotescas e indiscretas, exibidas por artistas ambulantes e descritas minuciosamente pelo narrador: