Introdução
Disparo
contra
o sol,
sou forte,
sou por
acaso,
minha
metralhadora
cheia
de mágoas,
eu
sou mais
um
cara.
Assim
Cazuza começa
uma das suas
canções
mais
emblemáticas – O Tempo
não
Pára, gravada em
1988 no auge
da sua
doença
e da sua
deterioração
pública
em
virtude
das complicações com
a Aids.
Instável
e desafiador, mas
também
extremamente
sedutor,
Cazuza soube unir,
durante
uma fase
da sua
produção
artística,
a rebeldia
e a meiguice,
o Rock e uma dócil
MPB; sua
“metralhadora”
destilou “mágoas”
e amores
sobre
uma geração
que
ainda
buscava sua
identidade.
Tais
aspectos
da sua
obra
o tornam um
artista
singular,
o maior
poeta
da sua
geração,
nas palavras
de Caetano Veloso.
Em
várias entrevistas e abordagens
públicas, o cantor nunca
escondeu a sua verve
melódica advinda da MPB: Dalva de Oliveira,
Cartola, Lupicínio Rodrigues, Maysa e outras
estrelas povoam a sua
criação musical. Tal
verdade foi uma das tantas razões
para sua separação
do seu grupo
musical de origem, o Barão
Vermelho. Estes
defendiam o rock autêntico, meio
“pauleira”, enquanto o cantor
já demonstrava uma nítida
vontade de seguir caminhos
próprios, “misturando tudo”
segundo ele
mesmo e, acima
de tudo, “bricolando” muita
coisa.
Analisar
criticamente este
processo
é o objetivo
principal
deste trabalho.
Mas
para
tal
intuito,
não
deixaremos de falar
suas
outras linguagens
estilísticas,
especialmente
aquela relacionada à performance,
à estetização do seu
corpo,
lócus privilegiado de exposição
pública
numa época
em
que
sua
doença
significava uma “sentença
de morte”
a curto
prazo,
bem
como
um
intenso
preconceito
por
ser
considerada o “câncer
gay”.
I - A Cena
Carioca
As
avaliações acerca
da década
de 80 já
fazem parte
de acalorados
debates
e tentativas
de se estabelecer
conceitos
interpretativos
sobre
esta época.
Cada
vez
mais,
esta geração
é colocada no divã
desesperado dos analistas
culturais; todos
têm demonstrado uma certa
unanimidade em
reconhecer
um
paradoxo:
por
mais
que
seja considerada uma geração
ideologicamente “vazia”
em
relação
aos politizados anos
60, foi responsável
por
uma produção
artístico-cultural criativa
e tensa
em
suas
experimentações culturais.
Testemunhas
pessoais
da Ditadura,
esses
jovens
personagens
iniciavam os anos
80 ávidos
por
encontrar
a sua
identidade
cultural, aquela que
tivesse a “cara”
do seu
momento,
que
expressasse o seu
estar
no mundo.
Em
termos
de rock, os anos
70 apresentaram um
caráter
particular:
houve uma considerável
produção
musical, todavia
o próprio
meio
cultural (especialmente
a mídia)
não
proporcionou a devida
repercussão, certamente
pelo
pouco
apelo
pop desta produção.
Esta década
testemunhou o surgimento
de bandas
como
O Terço,
A Bolha,
Terreno
Baldio,
Casa
das Máquinas,
Secos
e Molhados,
A Barca
do Sol
dentre
outras; isto
sem
falar
na fase
“progressiva”
dos Mutantes
e também
da criação
musical de Raul Seixas, um
dos principais
ícones
desta geração.
Vale
lembrar
que
os anos
70 também
foram marcados pela
realização
dos mais
diversos
festivais
de música,
fato
que
muito
contribuiu para
o “aquecimento”
cultural que
já
“preparava o terreno”
para
os anos
80.
Nesta
mesma
época,
a “febre”
das Discotecas
invadiu as pistas
de dança
embalada pelos
sucessos
de John Travolta no lendário
Embalos
de Sábado
à Noite
e aqui
no Brasil pelo
fenômeno
que
representou a novela
Dancing
Days. Os últimos
anos
desta década
presenciou uma interessante onda
de experimentalismos: no rock com
o grupo
Vímana(1); na poesia
com
os poetas
rebeldes,
especialmente
Chacal,
Chico Alvim, Ana
Cristina César e outros;
no teatro
com
o Asdrúbal Trouxe o Trombone.
Tais
iniciativas
traziam novas
linguagens
que
chamavam a atenção
para
as novas
possibilidades de criação,
uma espécie
de pontapé
inicial
para
o rock brasileiro
que
se configuraria de forma
definitiva
alguns
anos
depois.
Falar
do Rock Brasil e da Geração
80 ou
Geração
Coca-Cola é uma tarefa
trabalhosa,
digna
de uma tese
ou
então
uma considerável
publicação sustentada por
inúmeras páginas.
Este
trabalho
não
possui tal
intuito,
levando em
consideração
a sua
natureza
e extensão.
Todavia,
não
é possível
falarmos de Cazuza sem
levantar
alguns
dados
importantes
da época
que
o revelou ao Brasil, especialmente
de alguns
aspectos
da cena
carioca.
Sem
dúvida,
o Rock Brasil foi um
fenômeno
visto
e sentido
em
diversas regiões
do país,
com
uma infinidade
de variantes
que
só
enriqueceram o estilo,
com
propostas
as mais
diversas, todas com
o objetivo
de criar
um
“jeito
novo”
de ser
jovem
e de aparecer
no cenário
de então;
o que
dizer
de todo
a atmosfera
musical do Planalto
Central?
Brasília foi “dominada” pelas mais
diferentes
tribos
de roqueiros,
punks
e metaleiros. São
Paulo se tornou a capital
nacional
do Punk
Rock e das mais
variadas formas
do Rock Underground;
até
a “bem-comportada” Minas
Gerais
deu a sua
contribuição:
em
1983 foi formada a banda
Sepultura,
nossa
maior
representante do Heavy Metal.
Contudo,
escolheremos o Rio de Janeiro
e suas dinâmicas
culturais nos primeiros
anos da década
de 80: praia, teatro,
gravações, rádios,
personagens de narrativas
que agora temos
noção do que
representaram. Cazuza é um autêntico
exemplo desta “obra”
cultural produzida pela Cidade
Maravilhosa.
1.1 - Uma Loucura
Teatral:
Asdrúbal Trouxe o Trombone
Idealizado
pelo
ator
e produtor
cultural Perfeito
Fortuna
e sempre
dirigido por
Hamilton Vaz Pereira,
o Asdrúbal inicia sua
história
em
1974 com
a montagem
da comédia
O Inspetor Geral,
de Gogol. Mas
foi em
maio
de 1977 com
a peça
Trate-me Leão,
montada no Teatro
Dulcina (RJ), que
o grupo
se estabeleceu como
sucesso
de público
e de criatividade.
Seu
irreverente
nome
foi inspirado numa brincadeira
que
anunciava a chegada
de uma pessoa
chata
e indesejada. Sua
característica
principal
foi fazer
um
teatro
desengajado politicamente, o que
o colocava na contramão
de certas
vanguardas
teatrais
marcadas pela
politização de algumas produções,
como
o Teatro
Oficina
e o TUCA, ambos
de São
Paulo.
As
produções
do grupo
sempre
foram marcadas pelo
humor,
espontaneidade
e improvisação,
o que
era
uma forma
libertária
de expressão
artística.
A esse
respeito,
Caio Fernando Abreu afirmou num artigo
do jornal
porto-alegrense
Folha
da Manhã,
de 27 de agosto
de 1977:
Muitas coisas
podem ser
ditas sobre
os Asdrúbals e seu
Trate-me Leão.
Por
exemplo,
que
é um
espetáculo
alienado
e alienante, que
nada
tem a ver
com
a realidade
brasileira.
A proposta
de Trate-me Leão
é a da luta
pela
alegria
e se isso
não
é uma proposta
política,
desculpem, não
sei exatamente
o que
seria política.
(BRYAN: 2004)
Ou
seja, a alegria
e o deboche
também
são
atitudes
políticas,
ainda
que
não
o seja considerado por
determinados
setores
da Indústria
Cultural. Nesta produção,
o personagem
vivido
por
Luis Fernando Guimarães tem uma fala
que
sintetiza não
apenas
a proposta
do Asdrúbal, como
também
revela um
pouco
do pensamento
reinante
entre
muitos
jovens
daquele momento:
Não
me
mande ir
à luta
que
eu
não
gosto.
Tá legal?
Vai à luta
você.
É
a reação
contrária
e explícita
àquelas máximas
que
exortavam a juventude
a “mudar
o seu
destino”,
a “transformar
a sua
realidade”,
tão
comuns
em
anos
anteriores
e que
agora
já
não
ressoavam com
o mesmo
ímpeto
de outrora.
Neste momento
as “revoluções”
são
outras, especialmente
aquelas de caráter
comportamental, onde
a liberdade
será buscada em
todas as possíveis
dimensões.
O
elenco
original
de Trate-me Leão
era
composto
por
Perfeito
Fortuna,
Hamilton Vaz Pereira,
Luis Fernando Guimarães, Regina Casé (que
ganhou o prêmio
Molière de melhor
atriz
com
apenas
vinte e dois
anos),
Evandro Mesquita
e Patrícia
Travassos. Na maioria
das vezes,
os cenários
das produções
eram exageradamente pobres
e montados com
tábuas
mal
alinhadas e todas pichadas, o que
levava os atores
à necessidade
de uma grande
expressão
corporal
no momento
da atuação.
O
sucesso
do Asdrúbal foi tão
grande
a partir
de Trate-me Leão
que
em
1979 montaram a peça
Aquela Coisa
Toda,
em
cujo
enredo
uma equipe
de comediantes
refletia a respeito
de si
e do próprio
trabalho
artístico,
num claro
processo
de metalinguagem
crítico-reflexiva em
relação
aos dois
anos
“iluminados” de Trate-me Leão.
É interessante salientar
o intercâmbio
do grupo
com
os chamados poetas
marginais,
especialmente
Chacal;
inclusive,
o personagem
de Hamilton Vaz Pereira
se chamava Pena,
uma caricatura
do poeta
que
ajudou na criação
do espetáculo.
Sobre
esta fase,
Chacal
lembra:
Chega
de temas
filosóficos e importantes.
A gente
queria falar
do dia-a-dia,
da polícia
no calcanhar,
do pastel
que
comia no botequim
da esquina.
E falávamos isso
como
se fosse um
discurso
político,
tal
era
a comoção
que
havia pela
repressão
e por
reunir
grupo
de pessoas
para
ouvir
poesia,
numa época
que
ainda
não
tínhamos, como
tivemos depois,
a base
do rock para
sustentar
nossas letras
e que,
portanto,
tínhamos que
sair
berrando-as no meio
da rua.
Sair
reclamando poesia.
(CHACAL:
1998)
Chacal
fazia parte
de um
grupo
de poesia
vanguardista
chamado Nuvem
Cigana,
formado por
Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos,
Ronaldo Bastos,
Charles
Peixoto e Guilherme Mandaro. O Nuvem
Cigana
chegou a fazer
algumas mini-apresentações durante
os intervalos
de apresentação
do Asdrúbal, entre
um
ato
e outro.
No
início
dos anos
80, o Asdrúbal Trouxe o Trombone
“profissionalizou-se” de vez.
Após
uma longa
temporada
no Teatro
Ipanema, o grupo
decidiu montar
um
curso
de teatro
que
se realizaria no Parque
Lage. Tal
iniciativa
foi importante
pois
atraiu o patrocínio
de grandes
empresas
e a procura
foi tão
grande
que
foram obrigados
a limitar
as matrículas
dos interessados. Seus
sete
integrantes
se dividiram em
pequenos
grupos,
ficando cada
um
deles responsável
pelas aulas
e produções
das peças.
Com
isso,
cada
grupo
adquiriu a “cara”
do seu
coordenador, especialmente
quanto
aos enredos
estudados e encenados.
Desta
forma,
Luis Fernando Guimarães e Regina Casé ficaram responsáveis
pelo
grupo
Sem
Vergonha,
famoso
pelas conotações
sexuais
dos seus
espetáculos.
Hamilton Vaz Pereira
criou o Vivo
Muito
Vivo
e Bem
Disposto
(nome
retirado de um
verso
de Chacal),
formado por
Fausto
Fawcet, Fernanda Torres,
Ricardo Waddington e Lídia Brondi (uma das musas
da sua
geração).
Outro
grupo
(o que
durou mais
tempo)
foi o Banduendes Por
Acaso
Estrelados,
era
o maior
de todos
com
vinte e cinco
alunos
coordenados por
Evandro Mesquita
e Patrícia
Travassos. Nesta época,
Evandro Mesquita
já
cantava durante
as aulas
os seus
principais
sucessos
da Blitz
(especialmente
“Você
não
Soube me
Amar”)
que
viriam à luz
meses mais
tarde
com
a formação
deste grupo.
Entretanto,
o último
grupo
a ser
formado a partir
do Asdrúbal foi o Corpo
Cênico
Nossa
Senhora
dos Navegantes, comandado
por
Perfeito
Fortuna.
Era
o mais
debochado, provocador e musical de todos,
tinha
como
principais
representantes Leo Jaime, Ricardo Barreto (futuro
Blitz),
Carla Camuratti, Bebel Gilberto e Cazuza. Montaram no Circo
Voador
a peça
Pára-quedas
do Coração,
onde
Cazuza interpretou uma sátira
ao personagem
Capitão
Von Trapp de A |