Cazuza: a Bricolagem Crítica do Rock

Leandro Garcia Rodrigues(*)
Introdução

Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso, minha  metralhadora cheia de mágoas, eu sou mais um cara.  Assim Cazuza começa uma das suas canções mais emblemáticas – O Tempo não Pára, gravada em 1988 no auge da sua doença e da sua deterioração pública em virtude das complicações com a Aids. Instável e desafiador, mas também extremamente sedutor, Cazuza soube unir, durante uma fase da sua produção artística, a rebeldia e a meiguice, o Rock e uma dócil MPB; suametralhadora” destilou “mágoas” e amores sobre uma geração que ainda buscava sua identidade Tais aspectos da sua obra o tornam um artista singular, o maior poeta da sua geração, nas palavras de Caetano Veloso. 

Em várias entrevistas e abordagens públicas, o cantor nunca escondeu a sua verve melódica advinda da MPB: Dalva de Oliveira, Cartola, Lupicínio Rodrigues, Maysa e outras estrelas povoam a sua criação musical. Tal verdade foi uma das tantas razões para sua separação do seu grupo musical de origem, o Barão Vermelho. Estes defendiam o rock autêntico, meio “pauleira”, enquanto o cantor demonstrava uma nítida vontade de seguir caminhos próprios, “misturando tudosegundo ele mesmo e, acima de tudo, “bricolando” muita coisa. 

Analisar criticamente este processo é o objetivo principal deste trabalho Mas para tal intuito, não deixaremos de falar suas outras linguagens estilísticas, especialmente aquela relacionada à performance, à estetização do seu corpo, lócus privilegiado de exposição pública numa época em que sua doença significava uma “sentença de morte” a curto prazo, bem como um intenso preconceito por ser considerada o “câncer gay”.


I - A
Cena Carioca
 

As avaliações acerca da década de 80 fazem parte de acalorados debates e tentativas de se estabelecer conceitos interpretativos sobre esta época. Cada vez mais, esta geração é colocada no divã desesperado dos analistas culturais; todos têm demonstrado uma certa unanimidade em reconhecer um paradoxo: por mais que seja considerada uma geração ideologicamente “vazia em relação aos politizados anos 60, foi responsável por uma produção artístico-cultural criativa e tensa em suas experimentações culturais. 

Testemunhas pessoais da Ditadura, esses jovens personagens iniciavam os anos 80 ávidos por encontrar a sua identidade cultural, aquela que tivesse a “cara” do seu momento, que expressasse o seu estar no mundo. Em termos de rock, os anos 70 apresentaram um caráter particular: houve uma considerável produção musical, todavia o próprio meio cultural (especialmente a mídia) não proporcionou a devida repercussão, certamente pelo pouco apelo pop desta produção. Esta década testemunhou o surgimento de bandas como O Terço, A Bolha, Terreno Baldio, Casa das Máquinas, Secos e Molhados, A Barca do Sol dentre outras; isto sem falar na faseprogressiva” dos Mutantes e também da criação musical de Raul Seixas, um dos principais ícones desta geração. Vale lembrar que os anos 70 também foram marcados pela realização dos mais diversos festivais de música, fato que muito contribuiu para o “aquecimento”  cultural que “preparava o terreno para os anos 80. 

Nesta mesma época, a “febre” das Discotecas invadiu as pistas de dança embalada pelos sucessos de John Travolta no lendário Embalos de Sábado à Noite e aqui no Brasil pelo fenômeno que representou a novela Dancing Days. Os últimos anos desta década presenciou uma interessante onda de experimentalismos: no rock com o grupo Vímana(1); na poesia com os poetas rebeldes, especialmente Chacal, Chico Alvim, Ana Cristina César e outros; no teatro com o Asdrúbal Trouxe o Trombone. Tais iniciativas traziam novas linguagens que chamavam a atenção para as novas possibilidades de criação, uma espécie de pontapé inicial para o rock brasileiro que se configuraria de forma definitiva alguns anos depois. 

Falar do Rock Brasil e da Geração 80 ou Geração Coca-Cola é uma tarefa trabalhosa, digna de uma tese ou então uma considerável publicação sustentada por inúmeras páginas. Este trabalho não possui tal intuito, levando em consideração a sua natureza e extensão. Todavia, não é possível falarmos de Cazuza sem levantar alguns dados importantes da época que o revelou ao Brasil, especialmente de alguns aspectos da cena carioca. 

Sem dúvida, o Rock Brasil foi um fenômeno visto e sentido em diversas regiões do país, com uma infinidade de variantes que enriqueceram o estilo, com propostas as mais diversas, todas com o objetivo de criar umjeito novo” de ser jovem e de aparecer no cenário de então; o que dizer de todo a atmosfera musical do Planalto Central?  Brasília foi “dominada” pelas mais diferentes tribos de roqueiros, punks e metaleiros.  São Paulo se tornou a capital nacional do Punk Rock e das mais variadas formas do Rock Underground; até a “bem-comportada” Minas Gerais deu a sua contribuição: em 1983 foi formada a banda Sepultura, nossa maior representante do Heavy Metal. 

Contudo, escolheremos o Rio de Janeiro e suas dinâmicas culturais nos primeiros anos da década de 80: praia, teatro, gravações, rádios, personagens de narrativas que agora temos noção do que representaram. Cazuza é um autêntico exemplo desta “obra” cultural produzida pela Cidade Maravilhosa.


1.1 - Uma
Loucura Teatral: Asdrúbal Trouxe o Trombone
 

Idealizado pelo ator e produtor cultural Perfeito Fortuna e sempre dirigido por Hamilton Vaz Pereira, o Asdrúbal inicia sua história em 1974 com a montagem da comédia O Inspetor Geral, de Gogol.  Mas foi em maio de 1977 com a peça Trate-me Leão, montada no Teatro Dulcina (RJ), que o grupo se estabeleceu como sucesso de público e de criatividade Seu irreverente nome foi inspirado numa brincadeira que anunciava a chegada de uma pessoa chata e indesejada. Sua característica principal foi fazer um teatro desengajado politicamente, o que o colocava na contramão de certas vanguardas teatrais marcadas pela politização de algumas produções, como o Teatro Oficina e o TUCA, ambos de São Paulo. 

As produções do grupo sempre foram marcadas pelo humor, espontaneidade e improvisação, o que era uma forma libertária de expressão artística.  A esse respeito, Caio Fernando Abreu afirmou num artigo do jornal porto-alegrense Folha da Manhã, de 27 de agosto de 1977:

Muitas coisas podem ser ditas sobre os Asdrúbals e seu Trate-me Leão. Por exemplo, que é um espetáculo alienado e alienante, que nada tem a ver com a realidade brasileira.  A proposta de Trate-me Leão é a da luta pela alegria e se isso não é uma proposta política, desculpem, não sei exatamente o que seria política. (BRYAN: 2004)

Ou seja, a alegria e o deboche também são atitudes políticas, ainda que não o seja considerado por determinados setores da Indústria Cultural.  Nesta produção, o personagem vivido por Luis Fernando Guimarães tem uma fala que sintetiza não apenas a proposta do Asdrúbal, como também revela um pouco do pensamento reinante entre muitos jovens daquele momento:

Não me mande ir à luta que eu não gosto.  Tá legal?  Vai à luta você.

É a reação contrária e explícita àquelas máximas que exortavam a juventude a “mudar o seu destino”, a “transformar a sua realidade”, tão comuns em anos anteriores e que agora não ressoavam com o mesmo ímpeto de outrora. Neste momento as “revoluções são outras, especialmente aquelas de caráter comportamental, onde a liberdade será buscada em todas as possíveis dimensões. 

O elenco original de Trate-me Leão era composto por Perfeito Fortuna, Hamilton Vaz Pereira, Luis Fernando Guimarães, Regina Casé (que ganhou o prêmio Molière de melhor atriz com apenas vinte e dois anos), Evandro Mesquita e Patrícia Travassos.  Na maioria das vezes, os cenários das produções eram exageradamente pobres e montados com tábuas mal alinhadas e todas pichadas, o que levava os atores à necessidade de uma grande expressão corporal no momento da atuação. 

O sucesso do Asdrúbal foi tão grande a partir de Trate-me Leão que em 1979 montaram a peça Aquela Coisa Toda, em cujo enredo uma equipe de comediantes refletia a respeito de si e do próprio trabalho artístico, num claro processo de metalinguagem crítico-reflexiva em relação aos dois anos “iluminados” de Trate-me Leão. É interessante salientar o intercâmbio do grupo com os chamados poetas marginais, especialmente Chacal; inclusive, o personagem de Hamilton Vaz Pereira se chamava Pena, uma caricatura do poeta que ajudou na criação do espetáculo. Sobre esta fase, Chacal lembra:

Chega de temas filosóficos e importantes.  A gente queria falar do dia-a-dia, da polícia no calcanhar, do pastel que comia no botequim da esquina.  E falávamos isso como se fosse um discurso político, tal era a comoção que havia pela repressão e por reunir grupo de pessoas para ouvir poesia, numa época que ainda não tínhamos, como tivemos depois, a base do rock para sustentar nossas letras e que, portanto, tínhamos que sair berrando-as no meio da rua Sair reclamando poesia. (CHACAL: 1998)

Chacal fazia parte de um grupo de poesia vanguardista chamado Nuvem Cigana, formado por Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Ronaldo Bastos, Charles Peixoto e Guilherme Mandaro. O Nuvem Cigana chegou a fazer algumas mini-apresentações durante os intervalos de apresentação do Asdrúbal, entre um ato e outro. 

No início dos anos 80, o Asdrúbal Trouxe o Trombone “profissionalizou-se” de vez. Após uma longa temporada no Teatro Ipanema, o grupo decidiu montar um curso de teatro que se realizaria no Parque Lage. Tal iniciativa foi importante pois atraiu o patrocínio de grandes empresas e a procura foi tão grande que foram obrigados a limitar as matrículas dos interessados. Seus sete integrantes se dividiram em pequenos grupos, ficando cada um deles responsável pelas aulas e produções das peças. Com isso, cada grupo adquiriu a “cara” do seu coordenador, especialmente quanto aos enredos estudados e encenados. 

Desta forma, Luis Fernando Guimarães e Regina Casé ficaram responsáveis pelo grupo Sem Vergonha, famoso pelas conotações sexuais dos seus espetáculos.  Hamilton Vaz Pereira criou o Vivo Muito Vivo e Bem Disposto (nome retirado de um verso de Chacal), formado por Fausto Fawcet, Fernanda Torres, Ricardo Waddington e Lídia Brondi (uma das musas da sua geração). Outro grupo (o que durou mais tempo) foi o Banduendes Por Acaso Estrelados, era o maior de todos com vinte e cinco alunos coordenados por Evandro Mesquita e Patrícia Travassos. Nesta época, Evandro Mesquita cantava durante as aulas os seus principais sucessos da Blitz (especialmenteVocê não Soube me Amar”) que viriam à luz meses mais tarde com a formação deste grupo. 

Entretanto, o último grupo a ser formado a partir do Asdrúbal foi o Corpo Cênico Nossa Senhora dos Navegantes, comandado por Perfeito Fortuna. Era o mais debochado, provocador e musical de todos, tinha como principais representantes Leo Jaime, Ricardo Barreto (futuro Blitz), Carla Camuratti, Bebel Gilberto e Cazuza.  Montaram no Circo Voador a peça Pára-quedas do Coração, onde Cazuza interpretou uma sátira ao personagem Capitão Von Trapp de A