O romance católico e o apego aos seres de “exceção

Marcelo Tadeu Schincariol(*)

Sobre o romance católico 

Ao tratar de Cornélio Penna, Temístocles Linhares toca em uma questão que constitui o ponto de partida deste artigo. Descarta, na obra do romancista, a possibilidade de um compromisso religioso ou militância de base católica, com a veemência de quem pretende por fim à discussão sobre um conceito literário controverso:

O catolicismo pode impedir o pleno desenvolvimento do romancista? Esse é outro assunto, que não cabe discutir aqui, pois, para nós, a despeito de seu catolicismo, o autor quis ser apenas romancista. Um católico romancista então? Talvez, mas nunca um romancista católico, sempre fiel ao seu sentimento religioso, fazendo mesmo, implícita ou explicitamente, qualquer tipo de proselitismo ou de literatura católica militante, ainda que sejam sem conta os rumos dados em suas explorações pelos romancistas católicos. (LINHARES, 1987,42)

Considerando que o rótulo de “católico romancista” caberia com mais propriedade ao  escritor, Linhares leva a entender que a combinação oposta, “romancista católico”, implica algum tipo de proselitismo ou de literatura militante, manifestado implícita ou explicitamente. Sugere-se, assim, que a obra de umromancista católico”, dado seu engajamento, seria mais facilmente identificada ou definida comoliteratura católica”. Fica entretanto um ponto obscuro: em que medida seria possível chamar de católica a literatura posta em prática por umcatólico romancista”?

Ao contrário do que as considerações de Linhares podem sugerir, o conceito de “romance católico” apresenta-se ainda extremamente nebuloso no campo dos estudos literários; sobretudo quando se extrapola a perspectiva do sentimento religioso manifestado pelo escritor e parte-se para  uma análise precisa das implicações desse sentimento no próprio fazer romanesco. Exemplo disso é que, diante do risco de imprecisão - inerente, aliás, a todo tipo de rótulo -, ou mesmo na tentativa de evitar um debate a cuja conclusão não se chega, recorre-se muitas vezes a uma solução alternativa, como é o caso de Adonias Filho quando trata de Octavio de Faria:

O romancista, que abre o ciclo com Mundos Mortos, e em conseqüência da reprojeção cristã na devassa social, logo se integra no grupo de vértice dos ficcionistas católicos. As aproximações justificam as afinidades e por isso não se discute o entrosamento, quando não com o romance católico, pelo menos com a catolicidade. Não interessa, agora, referência ao debate sempre aberto se há ou nãoromance católico”. (ADONIAS FILHO, 1985, 34)

Não obstante, não se apresente de modo claro, o conceito de romance católico funciona de alguma forma entre os críticos de literatura, certamente porque estes reconhecem nas obras em questão temas caros ao catolicismo, que, de certa forma, aproximam os romancistas. Entre eles o pecado, o perdão, a reincidência, a culpa, a Queda, enfim, o percurso da Graça. Nossas leituras têm mostrado que, articulados a tal recorrência temática, aspectos de ordem estrutural definem os rumos do romance católico, apontando para uma postura filosófica que parece determinar-lhe as feições: a constatação da impossibilidade de explicar a realidade de forma inteira, o que somente seria possível a Deus. Definir os limites do romance católico não constitui, entretanto, o objetivo deste artigo, que tem como propósito mais imediato alimentar essa discussão sempre aberta por meio de um enfoque particular: sua recepção crítica.

Entre os romancistas estudados, estão os brasileiros Cornélio Penna, Octavio de Faria e Lúcio Cardoso. A extrema recorrência, nos textos que tratam de tais autores, de uma aproximação com alguns nomes do “romance católico francês” levou-nos a considerar as obras de Julien Green, Georges Bernanos e François Mauriac(1). A opção pelo chamado  romance católico francês justifica-se ainda pelo fato de, na França, essa tendência literária  ter sido bastante marcante, constituindo-se canônica.

 

Personagens pecadoras: romancista e leitor pecadores? 

Quando está em questão o romance católico, uma característica em particular chama a atenção da crítica: a atração dos autores pelas situações-limite, encenadas por personagens tidas como fora do normal, ou de exceção. Entre homicidas, suicidas, psicóticos, estupradores e linchadores, algumas delas sobressaem, tornando-se mundialmente célebres, o que tão bem ilustra Thérèse Desqueyroux, criada por Mauriac, a qual envenena letargicamente o marido sem saber ao certo o porquê. É preciso atentar que se trata de um discurso que parte, não raro, de uma crítica católica, constituindo-se quase sempre em condenações ferozes, de que talvez tenham sido os alvos principais François Mauriac e Cornélio Penna. Quanto a este, a recepção de sua obra é paradigmática entre os romancistas católicos: parece mesmo haver um consenso quanto ao caráter excepcional de suas personagens. Para citarmos apenas alguns exemplos, aos olhos de Massaud Moisés, são seresesquivos e incorpóreos(MOISÉS, 1996,514), ao passo que, para Oscar Mendes, “são criaturas semi-loucas e absurdas”, “seres estranhos e fantásticos, mais símbolos e abstrações, muitas vezes, que criaturas humanas” (MENDES, 1982). Luís Bueno as enxerga comocriaturas de exceção, com uma vida interior tão profusa quanto estéril(BUENO, 1996).(2)

Em meio às cobranças, identificam-se dois motivos de insatisfação: o de que as personagens, mergulhadas no pecado, não seriam dignas de figurarem como centro de dramas supostamente católicos; ou então de que soariam artificiais demais ou inverossímeis. Atravessando esses dois motivos, a idéia de que o romancista denunciaria, por meio dos seres que cria, sua atração pelo comportamento desviante, o que se agravaria por uma certa perda de limites entre criador/Criador e criaturas.

Charles Moeller possibilita pensar a questão de modo interessante. Tendo em conta a obra de Georges Bernanos, observa que no universo católico verifica-se uma forte relação entre o amor divino e o sofrimento humano. A esperança, configurando-se em sua mais alta tensão, a que termina por nos consumir, como explica, é a mesma que nos transfigura e nos dá o amor divino em troca de nosso pobre sofrimento humano. Assim, a idéia do sofrimento como caminho necessário à redenção por si justificaria o apego dos romancistas às situações extremas em que se encontram suas personagens, todas desenhando - imagem utilizada pelo próprio Moeller -, misteriosamente, um ícone, o do corpo de Jesus, no qual se perfaz a paixão redentora (MOELLER, 1964,398).

Tratando também da obra de Bernanos, Emmanuel Mounier permite que se explique tal apego por meio de viés complementar, que engloba inclusive as cobranças realistas de que as personagens se expliquem aos olhos do leitor. O crítico desenvolve a idéia de que Deus se manifesta como paradoxo das almas, mais que como luz dos espíritos, como escândalo, mais que como pensamento, como provocação, mais que explicação. A ignorância, a obscuridade, a ambivalência, a confusão, a insegurança do espírito e do coração viriam a nós em toda a parte em que Deus é verdade. Nesse sentido, a teologia teria em nosso mundo de hoje uma vocação especial, não a de tranqüilizar, mas de assegurar-nos porque não segurança se não for a da e na (MOUNIER, 1972, 153). Mounier ressalta que, ainda que as personagens de Bernanos sejam chamadas de “santos” - e, complementamos, talvez por isso não tenham despertado tantas críticas -, não são isolados; a riqueza sobrenatural que lhes é peculiar cria-lhes um dever: arriscá-la. Risco    de não escutar o apelo, ou escutando-o, recusá-lo; ou, seguindo-o, desviar-se dele (MOUNIER, 1972, 164). Não são por isso tranqüilos, no sentido que desejaria a crítica.

No Prefácio à sua tradução de Thérèse Desqueyroux, Carlos Drummond de Andrade articula um ponto de vista  interessante sobre essa discussão, levantando uma hipótese para explicar por que Mauriac teria encontrado no catolicismo seus amigos fervorosos e seus detratores cruéis:

O zombeteiro professor Thibaudet observa, a propósito de sua obra [de Mauriac] que “a Igreja, por muito tempo hostil ao teatro, nunca viu com bons olhos o romance, mesmo o católico”, abominando neste não