Fazer filosofia como romancista, ser
romancista
em filosofia”: Gilles Deleuze
(1)

Osvaldo Fontes Filho(2)


Cumpre,
inicialmente, perguntar: como falar de um autor que recusa o apelativoAutor” e que escreve para não ter mais que dizer EU, para chegar “ao ponto em que não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU”? (Deleuze,1996,11) Deleuze sustenta que atribuir um livro a um sujeito é negligenciar o que ali é do registro de um trabalho de circulação das matérias, dos seres, dos valores. Trabalho de um coletivo anônimo, de “um bloco, que não é de ninguém, mas está ‘entre todo mundo” (Deleuze 1998,17). Se modernamente o livro deixou de serbela interioridade orgânica”, todo biografismo virá pontuar indevidamente o que ali de fato é da ordem de uma multiplicidade caótica. Por isso mesmo Deleuze propõe substituir, com proveito, a figura circunscrita do Autor - e os ismos que servem a esclarecê-lo - pelas linhas de articulação ou circulação que toda escritura dispõe, e pelas velocidades de devir que traduzem as idéias e as sensações em rítmicas de viscosidade, de precipitação e de ruptura. Todo pensamento e toda escritura são agenciamentos, de modo que importaria antes saber com o que tal e tal autor ou livro funciona, “em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades, em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua [intensidade]” (Deleuze 1998,12).

Isto posto, com toda pertinência perguntar-se-á pela operação filosófica em Deleuze tendo por objeto, não a nossa identidade presente, o nosso ser, mas os nossos devires. A esse respeito, o que tem ele, enquanto filósofo, a nos dizer, a nós, hoje? Que conceitos ele alinhava, e de que maneira, mediante que linhas de recomposições ou mesmo de desvirtuações necessárias, de modo a encontrar os nossos impedimentos e nos ajudar a passar a outros registros, a nutrir outras intensidades. Pois que, e é fundamental apreendê-lo de imediato antes de prosseguirmos, há um pragmatismo do pensamento deleuzeano que propõe implicar modos de existência alternativos, liberar possibilidades de vida inatuais na contra-efetuação dos devires presentes oficiais. Para uma primeira estimativa da intensidade dessa pragmática, e dos modos como ela entende fazer irrupção nos processos atuais de subjetivação, bastaria verificar a avaliação que Deleuze faz da psicanálise, essa instância de legitimidade de nossos tempos:

“uma empresa contra a vida, um canto de morte, lei e castração [...] uma fantástica empresa para arrastar o desejo para impasses e para impedir as pessoas de dizerem o que têm a dizer” (Deleuze,1992,180).

Sobre impedimentos, aliás, não cansa de alertar Deleuze. De imediato, constate-se que eles são congênitos ao pensamento, que incessantemente produz seus aparelhos de poder. A filosofia, a propósito, está repleta de reflexões que se propõem pensar por nós, dar-nos uma conformidade, normas e regras às quais nos submetermos. A história da filosofia é mesmo uma “formidável escola de intimidação” ao nos indagar a cada vez, não sem petulância: “como você quer pensar sem ter lido Platão, Descartes, Kant e Heidegger, e o livro de fulano ou sicrano sobre eles?” (Deleuze 1998, 21) Assim, ao produzir o pensamento como apanágio de alguns tantos especialistas, mestres de cerimônia das conformidades a este ou aquele procedimento reflexivo, a história da filosofia dispõe-se como uma máquinaque impede perfeitamente as pessoas de pensarem” (Deleuze, 1998, 20). A filosofia o faz, mostra Deleuze, a cada vez que sufoca a vida ao lhe procurar seus princípios primeiros. Os filósofos são aqueles que “se deixam enganar de bom grado,  e  discutem  em torno  do  que  deve  ser  primeiro princípio  (o Ser, o Eu, o Sensível?...)” (Deleuze, 1998, 68). Contudo, procurar por um princípio abstrato explicativo das multiplicidades do mundo e da vida é se iludir sobre a maneira pela qual as coisas começam a se mover e a se animar, elas que começam a viver no meio” (Deleuze, 1998, 68), ou seja, nas obliqüidades, nos nomadismos de suas relações que as reportam por vezes longe de suas fronteiras canônicas. Razão, pois, para forçar o pensamento a ali pensá-las; ali, no ponto de cruzamento das heterogeneidades, cumpre fazer um ponto de alucinação do pensamento, uma experimentação que surta  violência ao pensamento e o demova de suas linhas pacificadas para vir ter com o que de fato dá a pensar.

Vir ter com o que de fato dá a pensar”: a invocação deleuzeana é de uma perfeita atualidade. “O pensamento filosófico - argumenta Deleuze - nunca teve tanto papel como hoje, porque se instala todo um regime não político, mas cultural e jornalístico, que é uma ofensa a todo o pensamento” (Deleuze, 1992, 46). Em seu último texto, toda a exasperação do filósofo está vertida contra a tristemente hegemônica imagem mediática do pensamento como troca de idéias ou discussão de opiniões. Desastre absoluto para o pensamento, garante Deleuze (1992a, 18), porque o presente regime de cultura - com seus novos sacerdotes, o jornalista cultural à proa com sua imensa competência opinativa -, ao favorecer o consenso como superior diretriz cogitativa e a homogeneização como efeito esperado do pensamento tornado comunicação, é o perfeito impedimento do que de fato caracteriza a operaçãopensar”, qual seja: singularizar, inventar acontecimentos ou renovar suas intensidades, desfazer relações estabelecidas entre os seres e conceber outras, não dependentes do opinativo; enfim, relançar possibilidades de vida inabituais e inatuais. Perfeita atualidade, pois, da função filosófica de criar Conceitos. Inconfundível faculdade de criação a sua, sobretudo ao reconhecer que suas personagens conceituais não têm a eficiência comunicativa de seus hodiernos rivais despudorados. O Conceito é justamente o que impede o pensamento de ser simples opinião, um parecer, uma discussão, uma tagarelice. Mesmo porque ele é forçosamente um paradoxo, no sentido em que sua fecundidade eventual vem da corrente de ar que faz passar entre domínios heterogêneos, com o que faz pensar, ver e sentir. Particular pragmatismo este, de uma filosofia para tempos de crispação dos possíveis: o Conceito intervém como reação às opiniões, aos fluxos ordinários de idéias, de modo a criar pregnâncias inéditas, novas singularidades ou um novo sistema de circulações singulares, enfim, uma redistribuição inesperada dos lugares, uma cartografia insólita para inopinados caminhos entre as idéias, as  coisas e os seres. “Nada de idéias justas, justo idéias”, Deleuze não pára de ressoar a frase de Godard. Nenhum método, nenhum procedimento lógico, nenhuma complacência com um bom senso universalmente partilhado virá aqui dirimir o pensar moderno de sua condição de “ato perigoso” (Foucault), condenado a tatear, a avançar às escuras, a inventar a cada vez uma orientação inaudita, ou uma “desorientada” experimentação, seus caminhos ametódicos necessariamente paradoxais.

Deleuze espera que a insensata inflação informativo-comunicativa dos tempos presentes - a conseqüente propagação de modos vergonhosos de existência e de pensamento-para-o-mercado (cf. Deleuze 1992a,103) - venha reforçar no pensar a consciência de que a sua dificuldade é congênita, de que seus adversários não são tanto os erros e as ilusões quanto a estupidez ou a banalidade. A modernidade, esclarece Deleuze, desperta para uma impotência interna do pensamento, para sua consciência de que pensar se faz sobretudo contra o próprio pensamento, contra essa fenda interior que faz com que as idéias, surgidas em infinita rapidez, percam velocidade, passem a exigir parcas dobras cerebrais e, por fim, se nos escapem. Nesse tocante, as imprecações deleuzeanas contra os tempos presentes não fazem senão prosseguir Heidegger.

Não, nós não pensamos, não aprendemos ainda a pensar, ainda não sabemos o que pensar significa, o pensamento permanecerá em nós uma possibilidade irrealizada enquanto não se der por tarefa o que eminentemente dá o que pensar” (apud Dias,1995, 36).

O que dá a pensar, complementaria Deleuze, é o que faz viajar o pensamento, o que o torna móvel (cf. Deleuze,1996,424), de um movimento sinuoso, reptilíneo (cf.Deleuze 1992a, 179), o que dele faz uma máquina de traçar novos circuitos neurobiológicos, afetivos, perceptivos, novos modos de idear e sentir em velocidade/intensidade incompatíveis com as cristalizações dos circuitos mentais impostas pelos atuais conformismos programados.

Nesse sentido, não escapa a Deleuze a convicção que todo pensamento bem  conformado está penetrado pelo projeto de tornar-se a língua oficial de um puro Estado (cf. Deleuze, 1998,21). A aproximação entre o pensamento e o Estado tem razão de ser, uma vez que se tome o aparelho de Estado como o que de fato ele é: “um agenciamento concreto que efetua a máquina de sobrecodificação de uma sociedade”. Essa máquina, explica Deleuze lembrando a lição foucaultiana, é a “máquina abstrata [porque disseminada no social] que organiza os enunciados dominantes e a ordem estabelecida de uma sociedade, as línguas e os saberes dominantes, as ações e sentimentos conformes, os segmentos que prevalecem sobre os outros” (Deleuze, 1998,150). Sabe-se como as linhas de vida são segmentárias: da família à profissão, da escola ao trabalho, da fábrica à aposentadoria, há sempre uma palavra de ordem a nos dizer: agora você não é uma criança, isto não é mais a escola, agora você não é um trabalhador, e assim ininterruptamente (cf. Deleuze,1992, 219). Pode-se então entender as razões pelas quais Deleuze investe contra a imagem do Estado para o pensamento. É no decurso de uma longa história de soberania e controle que