O erotismo e a mescla, sobre As Pranchas curvas de Yves Bonnefoy

Pablo Simpson(*)

C’est la vie mêlée à la mort, mais en lui, dans le même
moment, la mort est signe de vie, ouverture à l’illimité.
(1)

As Pranchas curvas, livro recém-publicado de Yves Bonnefoy (Mercure de France, 2001), apresenta um caminho para esse signo mesclado de Georges Bataille, em epígrafe. “Mêlé”, misturado. A acepção se precisa na exposição que busca o abismo, a distinção e diferença entre os seres. Somos distintos uns dos outros, indivíduos perecíveis, “suportamos mal a situação que nos leva à individualidade do acaso(2). Limiar entre vida e morte, primeira tentativa de definição: o erotismo, é possível dizer que é a provação da vida “jusque dans la mort”.(3) Trata-se de um instante, dissolução que remediaria o abismo, indiferenciando os homens na exuberância da vida, momento em que nós, que morremos isoladamente numa aventura ininteligível, pretendemos a continuidade perdida.  Substitui-se o isolamento por um sentimento de presença profunda: “qualidade de duração verdadeiramente vivida”, para acolher o sentido da narrativa “O Egito”, de Rue traversière (1977). Reparação, para Yves Bonnefoy, da morte materna, da perda da jovem, no cais, da terracom que me sentia bem, na extinção das aldeias, nas últimas procissões de tempo bom ou chuva”, imagem da Promé te quê, “que chamávamos também a doida”. São três mulheres, cuja alteridade pretendeu afirmar em todos os limiares de que se cercavam: limiar da morte, da incompreensão, da memória. Era preciso ouvi-las com audição atenta, voltando-a para as forças escondidas que guiavam o barco. “Éramos muitos nesse paquete que ia, há dias, à deriva, todos os motores parados, todos os fogos extintos, ainda que animado, bem o sentíamos, por uma força escondida.”(4)

Dizer “mesclado”, para afirmar a indiferenciação tão longamente inquirida por Bataille. É um atalho que permite apresentar esse novo conjunto de poemas de Yves Bonnefoy, mediante a dialética assumida em L’Érotisme. Evidencia a viabilidade de se retomar, a contra-luz, os poemas de Du Mouvement et de l’immobilité de Douve (1953), primeiro livro mais conhecido do poeta, permitindo observar nele uma atitude que diferencia as novas Pranchas. O termo “mêlé”, de um dos belos poemasPedra”, ressoa, no novo conjunto, a junção de dois tempos poéticos, de umnós que se apreende, talvez como desde Pierre écrite (1965), e, além disso, de uma rouquidão que será signo de uma outra voz, quase silêncio: indiferenciação e música baixa. Tal é o sentido que se tentará trazer para as observações de Michèle Finck, autora de Yves Bonnefoy: le simple et le sens e “Poétique de la voix rauque” e de Patrick Quillier, “Entre bruit et silence: Bonnefoy maître de chapelle? (esquisses acroamatiques)”. Sob o signo do que se apreende como unidade – e seria mesmo importante notar a referência do poeta à aliança plotiniana do simples e do uno – estaria a superação da dialética entre mundo e inscrição poética. Para Jean Starobinski, leitor dos poemas de Douve, tal era a condição paradoxal onde se encontrava a poesia: num mundo segundo, como lugar de uma nova vida, de outra plenitude. Poesia entre dois mundos, para citar o título de seu ensaio: entre o mundo árido de nosso exílio e o mundo-imagem construído pelas palavras.(5)

O sentido dessa apresentação é retomar, assim, o livro Du Mouvement et de l’immobilité de Douve, partindo de uma escuta de sua proposição e alternância eu/tu, de um erotismo que se acerca da diferença entre as vozes amorosas como abismo e intimidade. Talvez então se delimite um caminho em direção, duplamente, a um outro tempo, com as Pranchas: da nostalgia do idílio erótico como lugar de suficiência na vida, mas também do apagamento do sonho, espaço agora da audição, de uma música perseguida em seus índices mais materiais, assumindo-se na inscrição do poema. A “Pedra”, poema que será lido aqui, viria apontar para a finitude humana não mais mediante a dialética dos túmulos e seus semas, afirmação da morte como pertencimento pleno.(6) Porém em sua tentativa de constituir uma morada, incarnada na ambivalência verbal de “demeure” e “meure”, observada por Michèle Finck. Se em Douve ouvia-se a presença como um sangue – “É preciso cruzar a morte para que vivas/ A mais pura presença é um sangue derramado” – nas Pranchas, há o desejo de que esse mundo permaneça, “Que ce monde demeure!”. Tal desejo se expressa num olhar que recolhe os signos e músicas esparsas, longe da dialética intensa de sua incompreensão. Signos simplesmente desafinados, “sans accord”.

Emendo um ramo
Que se rompeu. As folhas
Estão pesadas de água e de sombra
Como o céu, de ainda

Antes
do dia. Ó terra,
Signos desafinados, caminhos esparsos,
Mas beleza, absoluta beleza,
Beleza de rio.(7)

Signos, talvez por isso, apartados de uma busca ou da dissolução do “eu” nas tensões do mundo, da luta que era atribuir-lhe nomes, conferindo à memória das palavras o apagamento e morte do outro. É menos isso do que a procura por uma terra simples, “antes do dia”, em que as palavras viriam tão somente recolher e queimar. Aguardando os ventos inflados da noite, para levar não tanto ao longe, mas ao perto da água: “As imagens se batem contra a água que sobe”. Poemas, na nomeação encerrada na quinta parte de “Na ilusão das palavras”, como âncoras lançadas, para retomar Georges Séféris.(8) 

E se permanece
Outra coisa que um vento, um recife, um mar,
Sei
que tu serás, mesmo de noite,
A
âncora lançada, os passos titubeantes sobre a areia,
E o
lenho juntado, e a centelha
Sob os ramos molhados, e, na inquieta
Atenção da chama que hesita,
A
primeira palavra dita após longo silêncio,
O
primeiro fogo a pegar no baixo do mundo morto.(9)                   

Então será a morada como simples habitação, na âncora que se fixa. É um retorno mesmo à maison natale, na sexta parte. Habitação como suficiência perante a morte, na morte que é o erotismo. Buscam-se as dissoluções naquilo que é juntar, atar, reunir. Mesclando, para usar o termo de Bataille, ao extrair um sentido senão de pertença à vida, a todos os seus ritmos e vozes, na música e nas palavras simples.


Douve
e os limiares

São duas questões que permitem abordar brevemente o livro de poemas Du Mouvement et de l’immobilité de Douve: a oposição entre conceito e morte, e a dialética das vozes eu e tu. Investigá-las, pretendendo ver o que se dispersava ao longo da primeira ensaística de Yves Bonnefoy, no conjunto de ensaios de L’Improbable. Eram matizes que pertubavam o ideal, na pintura de Piero della Francesca, Balthus, Ucello, ou nos capítulos principais sobre Baudelaire, Valéry, Sade. Baudelaire viria reanimar a idéia sacrificial de lugar inscrita na poesia, abrindo ao sentimento religioso.(10) Ucello, ao lado da essência matemática da representação “da coisa”, observaria seu aspecto imediato, quase espectral.(11)

um belo poema, “Vrai corps”, “Verdadeiro corpo”, nosÚltimos gestos” de Douve. Nestes se pressentem os abismos dos fossos, “douves”, que cercam os castelos no imaginário medieval, de que se cercam também os poemas. É a segunda voz, com seus antecendentes literários em Laura ou Délie, na Phèdre de Racine. Metáfora da morte, para John E. Jackson, principal crítico do poeta, o retorno a ela afirmaria a tentativa de interiorizar o seu destino, como nos poemas de “Douve parle”, em que a personagem viria desejar a extinção do verbo: “Que o frio por minha morte se erga e tome um sentido”.

No poemaVerdadeiro corpo”, o corpo de Douve se apresenta em sua assepsia. Trata-se de lavá-lo e, assim, recolhê-lo à nomeação. Entender pelo nome uma dialética que remonta à possibilidade, por um lado, de atestar, como um testemunho, a passagem dos vivos. Mas de apagar, por outro, na palavra, a variedade dessa passagem, a hesitação do ser que, desse modo, vem fechar-se “enclausurado”, “murado”. Os oxímoros são os mesmos do gelo ardente que recobre e anuncia a intimidade; dualidade da palavra que testemunha e dissipa aquilo que era voz e torna-se muro.

Fechada a boca e lavado o rosto,
Purificado o corpo, enterrado
Esse destino iluminando na terra do verbo
E o casamento o mais baixo se cumpriu.
Calada essa voz que gritava em minha face
Que estávamos a esmo e separados,
Murados
esses olhos: e tenho Douve morta
Na aspereza de si comigo enclausurada.
E maior o frio que sobe de teu ser,
E
ardente o gelo de nossa intimidade,
Douve,
falo em ti; e te encerro
No ato de conhecer e nomear.(12) 

As observações são breves. A última estrofe antepõe a ação da morte e sua condição de encerramento. O nome, a palavra poética, abririam a dimensão do conhecimento, tanto quanto negariam a intimidade das duas vozes do poema. É o momento em que uma delas se põe a falar, tão logo a outra se cala. Há um grito anterior que era o mesmo do “eu”, que agora anuncia, na última estrofe, a separação de ambos. Fecha-se a boca, lava-se o rosto. Anuncia-se a purificação do verbo e da terra, limpando o que era íntimo. Os muros se suspendem.

A voz que narra a morte de Douve precipita o seu ser na descontinuidade, nos muros que separam, como as “douves”, que cercam as pedras. A voz se cala, para avisar que os dois estão a esmo, ao acaso. O erotismo surge como desejo de supressão desse limite. O abismo entre elas, tão manifestas no poema, encontra a sua expressão exemplar. A pergunta final, no último poema de Douve, “Ó nossa força e nossa glória, podereis/ Furar a muralha dos mortos?”, repõe essa busca do outro. Está nos poemas em segunda pessoa, no “tu que percorre todos os versos, mas também na morte, angústia de uma destinação que não é somente a do “eu”. O interdito, a afronta aos túmulos, encontraria o erotismo no mato luxuriante que invade a personagem, na orgia: “E olhos facetados, tórax peludos, cabeças frias com bicos, com mandíbulas, a inundam”(13). Funda-se num movimento explosivo de violência, animal e sagrada, indicando a mescla e o pertencimento à morte, como em Bataille.

É preciso, no entanto, observar que o instante de nomeação da segunda pessoa, ao mostrar umeu que busca recuperar os seus rastros, representa um índice em que a diferença entre elas mais se atesta. A violência tanto une as vozes que gritam, tanto as separa. E é separá-las o que talvez aponte para uma outra intimidade, não a do erotismo como supressão da diferença. Mas a de um segredo, daquilo que é secreto e, de certo modo, principia a individuação. Contrariedade a tudo o que é público e testemunhado. Afirma-se o que permaneceu fechado e ardente, o que queimou e agora é apenas cinza.

A angústia da morte e a dor oferecem, assim, ao muro dessa separação, a dimensão de uma perda, que é o primeiro sentido da aspereza: “Na aspereza de si comigo enclausurada”. Lima-a com o nome, para divisar uma intimidade que se inicia no momento