Na Rua do Sabão: biográfico-nacional-musical
Pedro Marques(1)

NA RUA DO SABÃO

Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!

O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou
papel de seda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.

Ei-lo agora que sobe — pequena coisa tocante na escuridão do céu.

Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia
todo e mudava de cor.
A molecada da
Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai
balão!

Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...

                                 para longe...
                                                         serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José. 

Cai cai balão!
A molecada salteou-o
com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai
balão

Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais. 

           Ele, foi subindo...
                                  muito serenamente...
                                                         para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu
muito longe... Caiu no mar — nas águas puras do mar alto.(2)


“Na Rua do Sabão” é uma peça para dar o tom do Manuel Bandeira de O ritmo dissoluto, saído em 1924 com trabalhos de diversas épocas. Os mais antigos datam de 1913, como o “Carinho Triste”, supostamente dos primeiros poemas nacionais em verso livre. Terceiro de uma longa carreira literária, o livro está entre os atores principais na trama geral da obra. No juízo do poeta, representaria, mesmo, uma espécie de transiçãopara a afinação poética dentro da qual cheguei, tanto no verso livre quanto nos versos metrificados e rimados, isso do ponto de vista da forma, e na expressão das minhas idéias e dos meus sentimentos, e do ponto de vista do fundo, à completa liberdade de movimento”.(3) 

Essa manobra dentro de sua poesia que desde a estréia reservou novidades ao cenário brasileiro, mesmo dentro da matriz predominantemente parnaso-simbolista – sinaliza a entrada lenta na chuva modernista, que dominará a publicação seguinte, Libertinagem (1930). O posto crucial concedido ao livro pelo autor é ratificado, nem sempre com reflexão, por toda a crítica. um uníssono acerca d’O ritmo dissoluto marcar a aquisição de muitas inovações. Além da adesão segura e definitiva ao verso livre, aos temas cotidianos – verdadeiras coqueluches do momento – Manuel Bandeira surge ainda mais à vontade para acionar métricas e moldes tradicionais. 

Como acontece com todos os volumes de versos de Bandeira, trata-se de uma coletânea. A unidade poética foi forjada depois de quase tudo escrito, e de muitos versos terem aparecido em princípio na imprensa. Não houve uma idéia ou um tema prévio a partir do qual se foram compondo os poemas, encadeando-os como capítulos de uma narrativa. Uma das características que reforçam as cores modernistas do livro, é exatamente essa “unidade formal e temática algo fragmentária

No plano de fundo, ou dos sentimentos e sensações expressos, Ribeiro Couto, figura importante na vida e na obra de Bandeira, comenta: “todo o Ritmo Dissoluto  revela essa hesitação entre alegria da matéria quotidiana então descoberta, e a grave obsessão antiga, do velho tormento interior”.(4) Embora me pareça que tal hesitação venha desde Carnaval (1919), de poemas comoSonho de uma terça-feira gorda”. para Alcides Vilaça, O ritmo dissoluto inauguraria um novo movimento, desdobrado somente nos volumes posteriores. Tanto ele, quanto os livros subseqüentes, “aplicam-se no cultivo de uma resignação que o poeta destitui de qualquer sentido derrotista, que lhe serve ela como método de aplicação no viver e como forma de penetrar a realidade”.(5) A experiência assumida com o sofrimento ganha um sinal positivo; o fatalismo, doravante, será contestado “com a experiência do poético, objetivada em palavras”, ao invés de ser apenas lamentado. 

O entrechoque angustiado do poeta em face da morte eminente, é ponto exaustivamente observado. Manuel Bandeira, desenganado ainda moço por causa da tuberculose, apreciava desenvolver o tema morte. A partir deste livro, no entanto, essa obsessão antes aflorada em indignação às vezes ingênua, metamorfoseia-se numa resignação poderosa do ponto de vista da produção poética. O convívio com a ameaça constante de morte – soma-se a isso a perda durante a juventude dos pais e dos irmãos – emerge vez por outra nos poemas. É como se Bandeira, voraz perseguidor de grandes temas, tivesse sempre à mão um fato pessoal breve, uma pequena dor de morte, não raro infiltrados no âmago de sua poesia. Como se, ainda, a melhor maneira de se distanciar da fatalidade fosse transformá-la em poemas como “Na Rua do Sabão”. 

O ambiente literário brasileiro é efervescente. Artistas e intelectuais debatem os rumos do movimento modernista, a relevância de certas obras, empreendem toda uma revisão da história e da cultura. Mário de Andrade associa à renovação artística a pesquisa da cultura popular; Clã do Jabuti, de 1927, coroa essa atitude. Oswald de Andrade, na Poesia Pau-Brasil (1924), mistura carnaval, futurismo, surpresa e valorização do que lhe soasse genuinamente brasileiro. Proliferam correntes nacionalistas, como o Verde-amarelismo (1926) de Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e companhia. Nesse contexto pós-Semana, em que modernistas, embora divididos em grupos, ligam-se pelo nacionalismo, O ritmo dissoluto põe em curso, sem filiação rígida a nenhum programa de vanguarda, traços do que se almejava para a arte moderna do país. Como painel de orientações estéticas do período, nele se alastra o verso livre, a linguagem das ruas, temas grotescos ou caricatos ao lado de sublimes, a nota folclórica em poemas comoBerimbau” e “Na Rua do Sabão”. 

A nova crítica de jornais e revistas alimenta “o terreno novo da criação literária(6). Em certa medida, consolida o que Machado de Assis, em 1865, com “O Ideal do Crítico”, e em 1873, comInstinto de Nacionalidade”,(7) clamava para a crítica do Brasil: descortinar as excelências e os defeitos da literatura nacional. O então intelectual emergente defendia a necessidade da crítica fundamentada, minuciosa, coerente, independente da vaidade dos autores e do próprio crítico, para analisar, corrigir e animar a invenção. Sonhava ver substituída a crítica simplesmente laudatória ou destruidora comum em seu tempo, por uma nova crítica indicadora das falhas a serem resolvidas através do debate a todo instante. Manuel Bandeira, nesse quadro, nutre a ampla discussão literária com obras e com o exercício de crítico de arte respeitado que passa a desempenhar.


II

De saída, “Na Rua do Sabão” surpreende por dois aspectos: a espacialização aparentemente aleatória; a temática cotidiana representada pela micro-narrativa do filho da lavadeira em sua comovente epopéia para fabricar o balão. Sobre esse último aspecto, chamo a atenção para um depoimento de Luísa Barreto Leite, datado de 1968, ano de morte do poeta.

Até hoje lembro o frio que me corria pela espinha com a bela interpretação de Ruth de Sousa, na figura do filho da lavadeira quetrabalha na composição do jornal e foi tuberculoso”. Ele fazia balão como ninguém e quando o balão mais belo daquela noite de São João foi subindo, subindo, céu adentro, e com ele o soprinho frágil do menino tuberculoso, toda a gente no teatro, fosse adulto fosse criança, teve o coração apertado. Sentimentalismo exagerado? E que importa?(8)

É uma impressão de leitura, pautada na utilização do poema que baseou a peça infantil O Balão que Caiu no Mar (1949), de Odylo Costa. Não se sabe quais recursos cênicos foram utilizados, que cenários, quantas pessoas encontravam-se no palco, se versos foram acrescidos ou subtraídos... A descrição, de todo modo, interessa porque o texto proporcionou a interpretação teatral. O poema, curto, num minuto é lido, e em leitura não muito afetada nem demasiado apática, o transporte produzido compara-se à escuta de uma canção ou de um lied. Ativamos algum sentimento de dor ou de prazer intensificados num estreito intervalo de tempo: compaixão pelo menino tísico com pitadas de nostalgia da infância.

O leitor (ou ouvinte) de posse da biografia de Manuel Bandeira e conhecedor, portanto, dos problemas de saúde que enfrentou, consegue sem dificuldade entrelaçar a pessoa do poeta ao filho da lavadeira. O autor disponibilizaria seu material biográfico, transfigurando-o, no trabalho poético. Mário de Andrade pretendeu essa sobreposição entre os planos da poesia e da vida do autor:

No poema “Na Rua do Sabão" que é das mais belas páginas da lírica nacional ele dá ao menino pobre o que de mais importante ganhou da Terra, a tísica. E a gente se põe a amar não o José da poesia mas o Manuel poeta que com impiedade inconsciente de amoroso condenou a criança.(9)

Mário teve várias oportunidades para patentear o apreço especial pelo poema. Anos mais tarde, em 1932, motivado talvez por “Na Rua do Sabão”, escreveria o conto “Cai, cai, balão!”,(10) prosa singela em que o personagem principal, homem feito, disputa alucinadamente um balão com um bando de moleques. No pano de fundo, o balão condensa toda a tensão entre o ser adulto e a condição de criança. Antes dessa data, reforçara o gosto pelo poema em cartas a Manuel Bandeira. Numa bastante expressiva, em que se refere, inclusive, a sua página crítica acima citada, diz:

No poema “Na Rua do Sabão" que é das mais belas páginas da lírica nacional ele dá ao menino pobre o que de mais importante ganhou da Terra, a tísica. E a gente se põe a amar não o José da poesia mas o Manuel poeta que com impiedade inconsciente de amoroso condenou a criança.(11)

A comoção descrita conduz a de Luisa Leite, no sentido do arrebatamento. Mas quantos espectadores daquele teatro conheciam de passagem os sofrimentos suportados pelo poeta com a doença? Ou quantas pessoas, hoje, sabem disso? “Na Rua do Sabão” emociona mesmo quem ignore o infortúnio de Bandeira na mocidade? Talvez não uma emoção à beira da catarse, como a relatada por Leite, mas certamente um despertar para a dramatização da mensagem.

Para Roland Barthes “o escritor moderno nasce ao mesmo tempo que seu texto; não é, de forma alguma, dotado de um ser que precedesse ou excedesse a sua escritura, não é em nada o sujeito de que o seu livro fosse o predicado; outro