Calvino Fabuloso, por Gore Vidal (1)

Tradução, notas e comentários de Renato Marques de Oliveira (*)

Entre o final da Segunda Guerra, em 1945, e o início da Guerra da Coréia, em 1950, houve uma explosão de atividade criativa por todo o império norte-americano, bem como nos Estados clientes da Europa Ocidental. De A Era da Ansiedade [Age of Anxiety] de Auden (2) a Reflexos em um Olho Dourado [Reflections in a Golden Eye], de Carson McCullers (3); de O Céu que nos Protege [The Sheltering Sky], de Paul Bowles (4), a Um Bonde Chamado Desejo [A Streetcar Named Desire], de Tennessee Williams (5); dos balés de Tudor (6) aos ardorosos arrebatamentos de Bernstein (7), foi um período empolgante e excitante. Os ventos da Guerra Fria ainda eram uma brisinha gelada, e o então jovem senador de Wisconsin era apenas mais um político genial com uma quedinha por bebida e um olho gordo para rapazes. (8) Naquela época feliz, um jovem escritor norte-americano podia zanzar, triunfante, pelas velhas cidades européias – as taxas de câmbio eram inteiramente favoráveis.

 

Nesta primavera, completam-se vinte e seis anos desde que desembarquei em Roma. Primeiras impressões: forsítia amarelo-ácido no Monte Gianicolo. Glicínia violeta no Fórum. Nacos de carne de cabra no prato da trattoria. Samuel Barber (9) na Academia Americana, falando em italiano impecável. Harold Acton (10) deplorando, com extrema polidez, nossa presença bárbara na Europa dele. Frederic Prokosch (11) no café Doneys, comendo bolos. Ruas sem carros. Se existisse tráfego de qualquer espécie, Tennessee Williams devia estar havia muito tempo morto e enterrado no Cemitério Protestante, porque, apesar de gabar-se de serpraticamente cego de um olho”, o que alardeava com orgulho, dirigia um jipe, furando sinais vermelhos e tratando ruas e calçadas como se fossem uma coisa .

 

Visitei George Santayana (12) em sua cela-quarto de hospital no Convento das Freiras Azuis. (13) Ele estava vestindo um robe, a gola à Lord Byron aberta no pescoço mirrado, e um colete cor-de-malva desbotado. O homem era genial, a ponto de transformar a própria surdez em virtude: “Eu falo. Você escuta”. Um sorriso maroto; olhos pretos brilhantesele parecia exatamente igual à minha avó, tivesse ela, dramaticamente, ficado careca.

 

Você conhece meu jovem e novo amigo, Robert Lowell?” Respondi que não. “A vida dele vai ser difícil. Ser um Lowell. De Boston. Convertido ao Catolicismo”. (14) Os olhos pretos dele brilharam com adorável malícia. “E é poeta, também! Minha nossa! Agora, me diga uma coisa, quem é esse tal de Sr. Edmund Wilson? Ele veio aqui me ver. Acho que ele deve ser muito importante. Na verdade, creio que ele disse ser muito importante”. (15)Você me mandou um livro”, Santayana comentou. Respondi que não tinha mandado livro algum. Ele insistiu: “Mandou, sim”, e ficou bastante irritado. Tentei explicar a ele que não envio livros. Mas depois me lembrei que, na ocasião em que fomos resgatados pelo exército dos Estados Unidos – “e como ficamos alegres de ver você!” – uma olhadela carinhosa para mim – (ainda havia quem usasse uniforme cáqui e o cinturão puído do Exército) –, “um major, um sujeito bastante forte e impetuoso, veio me ver, carregado de livros meus. Ele se pôs de à minha frente e me obrigou a autografar todoseste para fulano, este outro para beltrano. Fiquei apavorado e fiz o que ele me pediu. Talvez um daqueles livros tenha sido para o Sr. Wilson”.

 

Na cela de Santayana os únicos livros existentes eram os seus própriosalém de uma série de volumes da História de Toynbee (16), publicada havia pouco, e que estava lendo à sua maneira característica, ou seja, primeiro quebrava (ou descolava) a lombada do livro e separava as seções; então, à medida que ia acabando de ler os capítulos, ia jogando no cesto de lixo. “Parece uma espécie de pregador, creio”, afirmou a respeito de Toynbee. “Mas as notas de rodapé não são de todo irrelevantes”.

 

Santayana autografou para mim um exemplar de The Middle Span (17); antes de seu nome, escreveu “de”. Quase nunca faço isso”, me disse. Um olhar de apreciação. “Você aparenta ser mais jovem do que é de fato, porque sua cabeça é um tanto quanto pequena em relação ao seu corpo”. Isso foi em 1948, quando os conquistadores norte-americanos viviam em Roma e Paris, flanando pelas ruas ainda vazias de automóveis e dos bilhões de seres humanos que desde então se juntaram a nós.

 

Naquele tempo longínquo, as pessoas se encontravam e conversavam sobre romances e romancistas, do mesmo jeito que agora falam sobre filmes e diretores de cinema. Os jovens de hoje em dia pensam que estou exagerando. Mas, de fato, naquela época os romancistas eram realmente importantes, e o romance italiano, em particular, florescia a olhos vistos, numa espécie de apogeu. Em contrapartida, os escritores norte-americanos em Roma e Paris não recebiam o mesmo entusiasmo. Em primeiro lugar, porque os italianos estavam apenas engatinhando na leitura de Dos Passos (18) e Steinbeck (19) – a geração que permanecera sem tradução durante a era fascista. No mais, naquele tempo (e hoje também) poucos autores italianos falavam ou liam em inglês com facilidade, enquanto que por sua vez os escritores norte-americanos (ainda que atualmente isso não ocorra com tanta freqüência) orgulhosamente se limitavam a falar somente inglês.

 

Lembro-me do dia em que, em 1948, caiu-me às mãos um livro de Italo Calvino. “Um Calvino italiano, repeti para mim mesmo, fixando para sempre na memória aquele nome. À-toa, fiquei imaginando e me perguntando que tipo de livro e sobre que assunto um homem chamado Calvino poderia escrever. Passei os olhos pelo primeiro romance dele, A trilha dos ninhos de aranha. (20) Alguma coisa a ver com os partigiani na Ligúria. Um colega romancista de guerra. “Não”, pensei, e deixei para , pondo o livro de lado. Apenas notei que o autor era dois anos mais velho que eu, trabalhava na Editora Einaudi e vivia em Turim.

 

Ano passado li Calvino de cabo a rabo, começando pelo mesmo livro que, em 1978, merecera de mim apenas uma rápida folheada. Traduzido para o inglês como The Path to the Nest of Spiders (21), o primeiro romance de Calvino é exuberante, e traz uma história contada de modo franco e direto. Ainda que a escrita seja convencional, há uma estranha intensidade na maneira com que Calvino as coisas, uma precisão de escrutínio e uma minúcia de exame muito próximas ao estilo de William Golding. Assim como Golding, Calvino sabe como e quando preencher inteiramente, fazendo uso pleno de todos os sentidos, paisagem, estado de espírito, ato. No romance The Spire, o retrato que Golding pinta da malfadada igreja é tão real que o leitor sente o cheiro da argamassa, as nuvens de poeira, teme pelas pedras fora do lugar. (22) Calvino faz o mesmo ao narrar a história de Pin, menino que vive no litoral da Ligúria, perto de San Remo (embora tenha crescido em San Remo, Calvino nasceu em Cuba, detalhe biográfico a que absolutamente nenhuma editora norte-americana de seus livros faz menção, sem dúvida em deferência à nossa recente e malograda tentativa de conquistar aquela desafortunada ilha).

 

Pin mora com a irmã, que é prostituta. Passa os dias numa taberna de má-fama, onde diverte com canções, insulta e provoca os adultos, raça de monstros no que lhe diz respeito e até onde ele saiba, mas é que não tem outra companhia, poisé um menino que não sabe brincar, e que não consegue tomar parte das brincadeiras nem dos garotos nem dos adultos”. Pin sonha, contudo, em encontrarum amigo, um verdadeiro amigo, que o compreenda e que ele posso compreender, e então, para ele, Pin mostrará o lugar das tocas das aranhas”:

É um atalho pedregoso que desce para a torrente entre duas paredes de terra e grama. Ali, em meio à grama, as aranhas fazem suas tocas, uns túneis forrados de cimento de grama seca; mas o mais maravilhoso é que as tocas têm uma portinha, também feita daquela massa seca de grama, uma portinha redonda que pode ser aberta e fechada.

É este tipo de observação precisa, quase científica, que distancia Calvino da qualidade sentimentalista que prevalecia na década de 1940, período em que mães negras ensinavam a seus sábios filhos lições de compaixão, ao mesmo tempo em que fritavam miúdos de porco e Jesus em partes iguais ao sul da linha Mason-Dixon. (23)

 

Pin junta-se aos guerrilheiros nas colinas acima da costa da Ligúria. Desconfio que Calvino esteja sonhando isso tudo, porque escreve feito um rato de biblioteca livresco e míope usando as lentes erradas: objetos absolutamente próximos são descritos de maneira vívida, mas as distâncias intermediárias e mais afastadas da guerra e da paisagem tendem ao borrão indistinto. O que, entretanto, não faz a menor diferença, pois os sonhos de um jovem míope dando os primeiros passos na carreira literária podem muito bem ser mais reais ao leitor do que as robustas e tumultuosas reportagens de alguns jornalistas-romancistas que, a despeito de sua presença efetiva e ostensiva , vendo tudo, nada viram.

 

Embora Calvino consiga fazer-se evidente na pele da criança ultrajada e ultrajante, insultada e insultuosa, ofendida e ofensiva, provocada e provocadora, os homens e mulheres que cria são quase sempre sombrios. Mais tarde, ao longo da carreira Calvino acabará eliminando tanto homens quanto mulheres, à medida que vai recriando o cosmos. Enquanto isso, de início é um escritor ardente, intenso, expressivo, se não é aqui e ali algo canhestro. Ao longo de dois terços da narrativa ele desloca o ponto de vista de Pin para um par de comissários, personagens que teriam sido mais eficazes tivesse o autor observado ambos pelo lado de fora. Depois, confusamente, mais uma breve mudança de foco narrativo, agora para a mente de um traidor prestes a ser fuzilado. Por fim, a voz narrativa retoma o ponto de vista de Pin, bem na hora em que o garoto encontra o tão aguardado amigo, um jovem guerrilheiro chamado Primo, que o leva pela mão não apenas literalmente, mas, ao que se presume, pelo resto do tempo de que Pin ainda precisa para virar adulto. Os últimos parágrafos de Calvino são sempre exultantesaquele tipo de coda alegre e agradável que somente um profundo pessimista acerca das coisas humanas poderia escrever. Mas então, assim como um dos companheiros de Pin, Lobo Vermelho, Calvino “pertence àquela geração que se formou olhando os álbuns coloridos de aventuras; que ele levou tudo a sério, e a vida até agora não o desmentiu”.

 

Em 1952 Calvino publicou O visconde partido ao meio (24), um dos três romances curtos depois reunidos sob o título Os Nossos Antepassados. (25) São obras engajadas, escritas num estilo levemente semelhante ao ciclo dos romances arturianos de T. H. White. (26) O narrador de O Visconde Partido ao Meio é, mais uma vez, um menino órfão. Durante uma Guerra entre a Áustria e a Turquia (1716), o tio do garoto, o Visconde Medardo di Terralba, leva uma bala de canhão no peito e tem o corpo rachado ao meio, de cima abaixo, em sentido longitudinal. Salvo pelos médicos ainda no campo de batalha, o mutilado Visconde é mandado de volta para casa, com uma perna, um braço, uma bochecha, um olho, meio nariz, meia boca etc. No caminho, Calvino presta (irônica?) homenagem a Malaparte: “A faixa de planície que atravessavam achava-se de fato cheia de carcaças eqüinas, algumas para cima, com os cascos voltados para o céu, outras de bruços, com o focinho enfiado na terra”.bela reprise dos cavalos mortos A Pele. (27)

 

A história é contada de modo alegre, divertido, esperto, bem-humorado. O meio Visconde é um completo mau-caráter, um vilão cruel que obtém enorme prazer matando, incendiando, torturando. Chega a atear fogo ao próprio castelo, na esperança de reduzir a cinzas sua velha ama Sebastiana – por fim, manda a criada para uma colônia de leprosos. Tenta envenenar o sobrinho. E nunca cessa de talhar em duas partes, a golpes de espada, todas as criaturas que encontra. Tem obsessão pela idéia da metade, da divisão, da incompletude:

Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira – disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo –, que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa.

Noto que a sinopse da contracapa quer fazer crer que se trata de “uma alegoria do homem modernoalienado e mutilado; este romance tem profundas implicações e nuances. Como paródia das parábolas cristãs a respeito do Bem e do Mal, a obra é a um tempo espirituosa, atual e agradável”. Bem, pelo menos o livro é mesmo espirituoso, atual e agradável. A bem da verdade, a história é menos cristã do que uma sátira das idéias de Platão como um todo.

 

No devido tempo, eis que ressurge na cidade a outra metade do Visconde, esta insuportavelmente bondosa e profundamente chata. A metade boa também renega a inteireza e faz o elogio da não-inteireza, porqueisso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletitude. Eu era inteiro e não entendia”. Uma bela e encantadora pastora de cabras chamada Pamela (homenagem a Richardson) (28) torna-se o objeto do amor das duas metades laceradas do Visconde, mas tem sérias reservas em relação a ambas. “Fazer boas ações juntos é a única maneira de nos amarmos”, entoa a metade bondosa. Ao que a irritadiça moça responde,Pena. Pensei que houvesse outras maneiras”. Quando, por fim, as duas metades são novamente unidas, o Visconde volta a ser um homem inteiro, mas o resultado é a costumeira mistura humana, não muito interessante. Num final feliz, ele se casa com Pamela. Mas o menino-narrador não fica contente. “Em meio a tantos fervores de integridade, eu me sentia cada vez mais triste e carente. Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem”.

 

O visconde partido ao meio é recheado de imagens naturais derivadas de observação cerrada e minuciosa, comoO subsolo estava tão abarrotado de formigas que era enfiar a mão em qualquer lugar e sair com ela toda preta e fervilhando”. Não sei o que foi escrito primeiro, O visconde, que é de 1952, ou “A formiga-argentina”, conto incluído em Botteghe Oscure, revista de literatura publicada no mesmo ano (29), mas o fato é que o pesadelo calviniano de um mundo infestado por formigas, tema mencionado apenas de passagem no romance do visconde dilacerado, vem a ser o mote principal do conto, e desconfio que agora devo repisar naquela palavra quase sempre tão castigada e mal empregada: “obra-prima”. Ou, usando outros termos, se “A formiga-argentinanão é uma obra-prima da prosa do século XX, não sei o que é, pois não consigo pensar em nada melhor. Certamente é tão ameaçador e estranho como qualquer coisa escrita por Kafka. E é também terrivelmente engraçado. Em cerca de quarenta páginas, Calvino nos apresenta “a condição humana”, segundo anotariam, exagerando, todos os escrevinhadores de sinopses, resumos, orelhas e resenhas. Ou seja, a condição humana atual. Ou o dilema do homem moderno. Ou o meio ambiente corrompido. Ou a vingança da natureza. Ou uma alegoria da graça divina. Sei , qualquer coisa... Mas, no fim das contas, a história é o que é, nada mais.

 

A primeira frase de Calvino é bem melhor até do que a primeira sentença de Deus, “No princípio, era o Verbo”. Deus (conforme foi revelado a São João) sempre teve propensão para abstrações nebulosas e confusas, do mesmo tipo dos devaneios estimados e praticados pelos novelistas norte-americanos da categoria peso-pesado – ao contrário de Calvino, que, preciso, leve, simplesmente nos conta o que acontece: “Nós não sabíamos dessa coisa das formigas quando viemos nos estabelecer aqui”. Nada há de absurdo emaqui” e “nós”. Aqui é um lugar infestado de formigas, e nós é a família nuclear: pai, mãe, filho. Sem nomes.

 

A família aluga uma casa numa cidadezinha “onde nosso tio Augusto costumava se sentir bem. O tio até que gostava bastante do lugar, embora tivesse dito, ‘, vocês tinham que ver, as formigas... não como aqui, as formigas...’ Mas na época não prestamos muita atenção”. Enquanto mostra a casa para o jovem casal que acabou de alugar a propriedade, a senhora Mauro, a senhoria local, distrai a atenção dos incautos com uma longa dissertação sobre o relógio do gás, evitando que prestem muita atenção às paredes. Quando a mulher vai embora, marido e mulher põem o filhinho para dormir e saem para dar um passeio pelo terreno da casa. Encontram o vizinho espargindo as plantas do jardim com um vaporizador. “É... as formigas... essas formigas...”, ele explica, e ri, “como se não quisesse dar importância”.

 

O jovem casal volta para casa e encontra tudo assolado por filas cerradas de formigas. As formigas-argentinas. De súbito, ocorre ao marido-narrador que tinha ouvido falar naquelas formigas e naquele país. “Fica na América do Sul”, informa, professoral, querendo ser útil e benévolo para a furiosa esposa. Por fim, vão dormir pela primeira vez na casa nova, sema sensação de alívio por iniciar uma nova vida, mas apenas com o sentimento de que éramos arrastados rumo a um futuro repleto de novas dificuldades”.

 

O resto da história narra os recursos e estratégias utilizados pelos vários moradores do vale para enfrentar as formigas. Alguns apelam para venenos e inseticidas; outros criam geringonças e dispositivos fantásticos para tentar confundir ou matar os insetos; sabe-se que, havia vinte anos, ostensivamente um representante da Corporação de Controle da Formiga-Argentina espalhava melado pela cidade de modo a controlar (matar) as formigas, o que muitos acreditavam que era feito apenas para alimentar e fortalecer os insetos. O furioso casal faz uma visita a senhora Mauro e exige explicações. Na sala sombria de seu casarão palaciano, a senhoria se mantém firme: não existem formigas em casas que são bem limpas e cuidadas; mas, pela maneira com que ela se contorce na poltrona, fica claro que os insetos estão formigando, picando e passeando por debaixo de suas roupas.

Metodicamente, Calvino descreve as várias reações humanas diante da Condição. Há o Cientista Cristão, que ignora toda e qualquer evidência; há a aceitação maniqueísta do Mal; há a inabalável crença darwiniana de que a superioridade genética vai prevalecer. Mas as formigas revelam-se figuras inquietantes e indestrutíveis, e a história termina com a fuga da família para o litoral, onde nãoformigas, e onde 

A água estava calma, quase com uma leve e contínua troca de cores, preto e azul, cada vez mais escuros conforme aumentava a distância. Eu pensava nas vastidões de água como aquela, nos infinitos grãozinhos de areia fina no fundo do mar, onde as correntes depositam cascas brancas de conchas polidas pelas ondas. 

Não sei ao certo o que significa este final. E também não vejo razão para que tenha que significar alguma coisa. É estabelecido um contraste entre o vale fervilhante de formigas e a fresca serenidade dos minerais e conchas escondidos sob as águas, aquele outro ar que não respiramos mais desde que nossos antepassados escolheram viver na superfície da terra.

 

Em 1956 Calvino editou um volume de Fábulas Italianas (30), e os críticos locais decidiriam que ele era um verdadeiro herdeiro dos Grimm. É certo que o mundo encantando e fatal dos contos de fadas atrai Calvino, que volta ao gênero com O barão nas árvores (31). Assim como nas duas outras partes da trilogia, a história é narrada na primeira pessoa, no caso pelo irmão do barão epônimo. O ano é 1767. O lugar, a Ligúria. O barão do título é Cosimo [Cosme] Piovasco di Rondó, que, depois de uma discussão à mesa do jantar, no dia 15 de Junho, decide ir viver nas árvores. A família e os amigos reagem de maneira diversa à atitude do jovem barão. Mas Cosme está feliz. Mais tarde entra na política, trava relações como o próprio Napoleão em pessoa; torna-se uma lenda.

 

A essa altura Calvino desenvolveu dois modos de escrita. Um é literariamente fabuloso-fabular-fabulista. O outro tem por base um estilo seco, didático até, em que o detalhe é observado de maneira absolutamente precisa, como se o autor estivesse escrevendo um manual para a construção de painéis solares. Contudo, as premissas das históriassecassão quase sempre tão fantásticas quanto às das fábulas.

 

O conto “A nuvem de smog” foi publicado em 1958 (32), muito tempo antes da hoje tão em voga preocupação com a destruição sistemática do meio ambiente. O narrador chega a uma cidade grande para assumir o cargo de redator de um jornal de pequena circulação chamado A Purificação. O dono do periódico, o Comendador Cordà, é engenheiro e um importante industrial, responsável pela produção do tipo de poluição do ar que sua própria publicação gostaria de ver eliminada. A posição de Cordà é ambígua, e o novo editor acaba se encaixando muito bem na função. Predomina no conto a imagem do smog: um finíssimo véu de poeira cinzenta cobre tudo; nada jamais pára limpo. A cidade se parece muito com o vale em que vivem as formigas-argentinas, mas numa escala maior, porque agora toda a vasta população da cidade vai lentamente sendo sufocada pela neblina fumacenta e carregada de produtos químicos da indústria e de seus motores a explosão.

 

O humor de Calvino é fino e ferino no episódio em que o dono do jornalinstruções ao redator sobre como encontrar o tom mais adequado para o artigo de fundo: “Nós não somos utópicos, que isso fique bem claro, somos pessoas práticas...”, ouÉ uma batalha por motivos ideais, ou Não haverá (nem, aliás, com efeito nunca houve) contradição entre uma economia em livre expansão natural e a higiene necessária ao organismo humanoentre a fumaça de nossas operosas chaminés e o azul e o verde de nossas incomparáveis belezas naturais”. Por fim, os dois chegam a um