O Discurso da História na Teoria Literária Brasileira
Marcos Siscar(1)

I

Quem se atreve a fazer da situação contemporânea da teoria o seu objeto de estudo(2) coloca-se a tarefa não de entender o sistema de trocas teóricas na qual esse discurso se insere, mas afirma também, ainda que indiretamente, a existência de uma história. Essa dupla tarefa não agrega rigor à análise, como também angaria maiores razões de dificuldade. De fato, se há uma idéia de totalidade sincrônica na delimitação do estado de coisas do presente, não se pode esquecer que a descrição de um determinado presente repousa sobre uma profundidade temporal que permitiria estabelecer a identidade do que existe pela relação com o que passou. Não custa lembrar que os julgamentos sobre o presente são normalmente emitidos a partir de aspectos que consideramos merecerem ser esquecidos ou preservados dentro daquilo que chamamos o passado. E ainda que essa referência não apareça, o sentido pleno de um momento do presente se desvenda quando conseguimos determinar absolutamente suas vinculações históricas. 

Quem fala da situação contemporânea da teoria afirma ou confirma, portanto, ainda que indiretamente, uma história; pressupõe determinados atores e determinadas resultantes de um processo, quer seja ele linear-evolutivo, quer seja projetado criticamente ou galaticamente a partir do seu presente. Nada mais necessário (e inevitável) do que a constituição de uma história. Entretanto, por outro lado, nada mais construído, sujeito à incessante interpretação e verificação. E nenhuma estratégia teórica ou ideológica pode dar ao intelectual digno deste nome o direito de esquecer os dois lados do problema. Que história seria essa? Qual o seu conteúdo, seus atores, a lógica que a teria conduzido para determinado resultado contemporâneo? As respostas a essas perguntas podem ser tão variadas quanto são os interesses mobilizados por aquele que se propõe a desvendar um conteúdo histórico. De modo que, genericamente, não é incorreto dizer que aquilo que chamamos teoria (termo que prefiro usar aqui, no lugar da “crítica”) se deixa guiar, num extremo, pela história das pulsões reconhecíveis na escrita de determinado teórico e, num outro extremo, pela afirmação de valores e crenças que a empenham ideologicamente. Entre esses dois vínculos do pensamento com a suarealidade”, perfila-se uma série de resistências e de projetos que definem em grande parte o conteúdo daquilo que chamaríamos o estado da teoria, em determinado momento, para determinado autor

A constatação é, até certo ponto, banal e corresponde aproximadamente à seguinte formulação: aquilo que chamamos contemporâneo está sujeito à interpretação. Está sujeito à interpretação, não porque estamos mais colados ao presente do que ao passado, não porque o presente está em curso, não exatamente porque sabemos pouco sobre ele. O presente está tão fundamentalmente sujeito à interpretação quanto o passado (e na forma da antecipação, também o futuro). Como qualquer descrição histórica dos fatos passados, a visão do estado de coisas do presente é uma construção e as manifestações dessa construção constituem “intervenções”. Se o discurso sobre o presente é resultado de uma interpretação, então a situação atual da teoria deveria conjugar-se no plural: os contemporâneos da teoria. Sua história são, na verdade, histórias

O discurso sobre o contemporâneo envolve portanto pelo menos uma história. Ele recorta, direta ou indiretamente, os eventos significativos do passado, elege seus interlocutores, próximos ou oponentes; estes, o ajudam a dar forma ao discurso na direção de determinadas perspectivas de pensamento. Tal mobilização discursiva constitui, pois, uma série histórica e uma genealogia. Porém, mais fundamentalmente, como estou propondo, o discurso sobre o presente caracteriza-se, de modo rotineiro, pela hipótese agregadora e metodológica da própria história como recurso de constituição do saber.  

Que história seria essa? De que maneira uma hipótese histórica pode ser retomada numa explicação do contemporâneo?  


II
 

Reconheçamos, de início, que o saber produzido na Universidade enfatiza, há algumas décadas, uma problemática que incide sobre o presente da teoria, colocando-se freqüentemente a questão do estado ou da conjuntura do pensamento que se produz. De maneira abrangente, podemos dizer que a produção de conhecimento tem se caracterizado por um constante questionamento sobre o papel político e social do discurso, em torno de suas implicações ou de suas aplicações. Seria possível dizer que a prática teórica tem sido insistentemente ligada à questão da responsabilidade social, cultural e política, quer seja pela via da articulação entre experiência discursiva e ética discursiva, quer seja ainda por meio do privilégio ou da defesa estratégica de uma dessas instâncias em relação à outra.  

Essa prática teórica tem retomado a perspectiva histórica de diferentes maneiras, muitas vezes conflitantes. Percebemos, no entanto, uma preocupação comum voltada explicitamente para a necessidade da constituição de uma postura eticamente sustentável para o exercício da teoria. Entre os mais atuantes e influentes discursos de nosso tempo (e isso é especialmente claro no Brasil, por razões que valeria a pena meditar), temos portanto uma demanda ética voltada decisivamente para a atitude discursiva que se refere à história ou ao lugar a partir do qual essa história se estabelece. A isso se associa, entre nós, a exigência sistemática da atenção que essa teoria deveria ter para com a sua própria história como produção intelectual. Não bastaria à crítica referir-se à história, ela deveria ser capaz igualmente de esclarecer o seu lugar dentro dessa história, que é também a história das ciências humanas e da Universidade no Brasil. assim, isto é, apenas ao justificar sua situação como herdeira de uma demanda histórica, uma determinada postura crítica, qualquer que seja, poderia justificar sua necessidade teórica e aspirar a ter o seu espaço institucional.  

Analisando a maneira pela qual essas posturas críticas, no Brasil, colocam-se diante de sua necessidade de auto-legitimação, seria possível, a meu ver, encontrar duas justificativas básicas para suas propostas: uma delas seria a da carência intelectual em nosso meio e a outra seria a da urgência em se estabelecer uma identidade teórica independente. Nos dois casos, o diálogo se dá a partir da problemática da relação com a teoria produzida fora do Brasil: num caso, o da carência, afirma-se a necessidade brasileira da constituição e da atualização teórica a partir do seu exterior; no outro caso, o da urgência, afirma-se o descompasso social dessa atualização e o imperativo de uma estrutura de pensamento brasileiro senão autóctone, pelo menos auto-suficiente. A relação entre essas posturas, entretanto, não é simétrica. Existe uma história recente da constituição desses pontos de vista que nenhuma sociologia da vida intelectual se dispôs ainda a elaborar. Em certos aspectos, pode-se dizer até que cada uma dessas posturas se estabelece a partir de uma leitura e de uma resposta à outra.  

Em todo caso, parece claro que a determinação da teoria pensada a partir da sua função e história locais, especialmente sensível na teoria da literatura, é uma produção mediada por determinados discursos sobre o Brasil, presentes na antropologia, na sociologia, na geografia política e na teoria da literatura. Esses discursos mobilizam nossa atenção há algumas décadas, resultando para a teoria a idéia de que é preciso produzir conhecimento com a atenção voltada para o contexto e, por extensão (que considero discutível), necessariamente voltada para a nossa tradição intelectual. A proposta, até que se prove o contrário, tem, como diz um de seus interlocutores, umapelo intuitivo forte”. Liga-se a uma demanda de responsabilidade que diz respeito à atuação do intelectual e que não é exclusivamente ou especialmente típica dos países ditos periféricos, embora se manifeste neles de modo mais dramático. De maneira mais ou menos generalizada, para legitimar-se, o pensamento deve saber explicitar sua vinculação com a circunstância histórica. Mas que história é essa? De que maneira ela é contada? 

Uma vez aceita a proposta de tomar as coisas pelo viés de sua conjuntura (decisão teoricamente significativa e que empenha tudo o que se discutiu sobre a idéia de estrutura, de centralidade, de sistema), pode-se portanto observar uma linha de força que interpreta a história como discurso organizador do sentido econômico e cultural de nossa situação como críticos do presente. Seria preciso questionar, na seqüência, as estratégias usadas para a constituição dessa história. Como o teórico estrutura e justifica sua visão da história? O diálogo com o passado pode ser feito de perspectivas e com atitudes bastante distintas: ao se procurar delimitá-lo, pode-se mimetizá-lo, engrandecê-lo; ou rejeitá-lo, silenciando-o; projetar sobre ele as preocupações do presente, anacronicamente; ou despertá-lo, reteomando-o a contrapêlo; ou ainda pressupô-lo como conhecido de maneira a não discuti-lo, considerada a sua grande ou (alternativamente) a sua pequena relevância

Ocorre que a história não é um ponto de vista qualquer, e é isso o que me interessa particularmente: atribuir valor histórico aos fatos convive com a necessidade de se assumir a historicidade do discurso da tradição. Uma das resultantes da escrita da história é justamente o desvendamento dos mecanismos pelos quais, dentro da massa quase incomensurável de acontecimentos, determinados interesses levam a transformações de acontecimentos brutos em eventos com valor histórico significativo. Ao se analisar a constituição da nação, por exemplo, uma das tarefas da história é desvendar o sentido da ideologia romântica no Brasil, isto é, não apenas definir a consciência romântica (supondo-se que ela seja homogênea, o que está longe de ser verificável), mas analisar como, pela via dos críticos e intelectuais românticos e posteriores, até o presente momento, o discurso da nacionalidade se firmou enquanto modo de compreensão dos fatos locais. Quero dizer que, sob esse aspecto, a história é um discurso que se associa mais rigorosamente a um regime discursivo da interpretação do que a um regime discursivo do fato (do evento constituído em sentido da história). Sob pena de projetar sobre o passado todo o peso de uma visão constituída aprioristicamente, a história constitui-se mais como exegese de séries discursivas, a serem sempre recomeçadas, do que como estabelecimento de um sentido definido para o real. Como veremos, esse regime discursivo da interpretação é freqüentemente solapado por um procedimento retórico que consiste a considerar a interpretação como fato instransponível do presente. Um exemplo marcante é a Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, que, ao descrever as preocupações românticas, assume-as explicitamente como ponto de vista sobre o Brasil, ganhando, por assim dizer, um narrador que seria Machado de Assis, na interpretação marota