I
Quem
se atreve a fazer
da situação
contemporânea
da teoria
o seu
objeto
de estudo(2)
coloca-se a tarefa
não
só
de entender
o sistema
de trocas
teóricas na qual
esse
discurso
se insere, mas
afirma também,
ainda
que
indiretamente,
a existência
de uma história.
Essa dupla
tarefa
não
só
agrega rigor à análise,
como
também
angaria maiores
razões
de dificuldade.
De fato,
se há uma idéia
de totalidade
sincrônica na delimitação do estado
de coisas
do presente,
não
se pode esquecer
que
a descrição
de um
determinado
presente
repousa sobre
uma profundidade
temporal
que
permitiria estabelecer
a identidade
do que
existe pela
relação
com
o que
passou. Não
custa
lembrar
que
os julgamentos
sobre
o presente
são
normalmente
emitidos a partir
de aspectos
que
consideramos merecerem ser
esquecidos ou
preservados dentro
daquilo que
chamamos o passado.
E ainda
que
essa referência
não
apareça, o sentido
pleno
de um
momento
do presente
só
se desvenda quando
conseguimos determinar
absolutamente
suas
vinculações
históricas.
Quem
fala
da situação
contemporânea
da teoria
afirma ou
confirma, portanto,
ainda
que
indiretamente,
uma história;
pressupõe determinados
atores
e determinadas resultantes
de um
processo,
quer
seja ele
linear-evolutivo, quer
seja projetado criticamente ou
galaticamente a partir
do seu
presente.
Nada
mais
necessário
(e inevitável)
do que
a constituição
de uma história.
Entretanto,
por
outro
lado,
nada
mais
construído,
sujeito
à incessante
interpretação
e verificação.
E nenhuma estratégia
teórica
ou
ideológica pode dar
ao intelectual
digno
deste nome
o direito
de esquecer
os dois
lados
do problema.
Que
história
seria essa? Qual
o seu
conteúdo,
seus
atores,
a lógica
que
a teria conduzido para
determinado
resultado
contemporâneo?
As respostas
a essas perguntas
podem ser
tão
variadas quanto
são
os interesses
mobilizados por
aquele
que
se propõe a desvendar
um
conteúdo
histórico.
De modo
que,
genericamente, não
é incorreto
dizer
que
aquilo
que
chamamos teoria
(termo
que
prefiro usar
aqui,
no lugar
da “crítica”)
se deixa
guiar,
num extremo,
pela
história
das pulsões reconhecíveis na escrita
de determinado
teórico
e, num outro
extremo,
pela
afirmação de valores
e crenças
que
a empenham ideologicamente. Entre
esses
dois
vínculos
do pensamento
com
a sua
“realidade”,
perfila-se uma série
de resistências
e de projetos
que
definem em
grande
parte
o conteúdo
daquilo que
chamaríamos o estado
da teoria,
em
determinado
momento,
para
determinado
autor.
A
constatação
é, até
certo
ponto,
banal
e corresponde aproximadamente à seguinte
formulação:
aquilo
que
chamamos contemporâneo
está sujeito
à interpretação.
Está sujeito
à interpretação,
não
porque
estamos mais
colados ao presente
do que
ao passado,
não
porque
o presente
está em
curso,
não
exatamente
porque
sabemos pouco
sobre
ele.
O presente
está tão
fundamentalmente
sujeito
à interpretação
quanto
o passado
(e na forma
da antecipação,
também
o futuro).
Como
qualquer
descrição
histórica
dos fatos
passados,
a visão
do estado
de coisas
do presente
é uma construção
e as manifestações
dessa construção
constituem “intervenções”.
Se o discurso
sobre
o presente
é resultado
de uma interpretação,
então
a situação
atual
da teoria
deveria conjugar-se no plural:
os contemporâneos
da teoria.
Sua
história
são,
na verdade,
histórias.
O
discurso
sobre
o contemporâneo
envolve portanto
pelo
menos
uma história.
Ele
recorta, direta
ou
indiretamente,
os eventos
significativos
do passado,
elege seus
interlocutores,
próximos
ou
oponentes;
estes,
o ajudam a dar
forma
ao discurso
na direção
de determinadas perspectivas
de pensamento.
Tal
mobilização discursiva constitui, pois,
uma série
histórica
e uma genealogia.
Porém,
mais
fundamentalmente,
como
estou propondo, o discurso
sobre
o presente
caracteriza-se, de modo
rotineiro,
pela
hipótese
agregadora e metodológica da própria
história
como
recurso
de constituição
do saber.
Que
história
seria essa? De que
maneira
uma hipótese
histórica
pode ser
retomada
numa explicação
do contemporâneo?
II
Reconheçamos,
de início,
que
o saber
produzido na Universidade
enfatiza, já
há algumas décadas,
uma problemática
que
incide sobre
o presente
da teoria,
colocando-se freqüentemente
a questão
do estado
ou
da conjuntura
do pensamento
que
se produz. De maneira
abrangente, podemos dizer
que
a produção
de conhecimento
tem se caracterizado
por
um
constante
questionamento
sobre
o papel
político
e social
do discurso,
em
torno
de suas
implicações
ou
de suas
aplicações.
Seria possível
dizer
que
a prática
teórica
tem sido insistentemente
ligada
à questão
da responsabilidade
social,
cultural e política,
quer
seja pela
via
da articulação
entre
experiência
discursiva e ética
discursiva, quer
seja ainda
por
meio
do privilégio
ou
da defesa
estratégica
de uma dessas instâncias
em
relação
à outra.
Essa
prática
teórica
tem retomado a perspectiva
histórica
de diferentes
maneiras,
muitas vezes
conflitantes. Percebemos, no entanto,
uma preocupação
comum
voltada explicitamente para
a necessidade
da constituição
de uma postura
eticamente sustentável
para
o exercício
da teoria.
Entre
os mais
atuantes
e influentes discursos
de nosso
tempo
(e isso
é especialmente
claro
no Brasil, por
razões
que
valeria a pena
meditar),
temos portanto
uma demanda
ética
voltada decisivamente
para
a atitude
discursiva que
se refere à história
ou
ao lugar
a partir
do qual
essa história
se estabelece. A isso
se associa, entre
nós,
a exigência
sistemática
da atenção
que
essa teoria
deveria ter
para
com
a sua
própria
história
como
produção
intelectual.
Não
bastaria à crítica
referir-se à história,
ela
deveria ser
capaz
igualmente
de esclarecer
o seu
lugar
dentro
dessa história,
que
é também
a história
das ciências
humanas e da Universidade
no Brasil. Só
assim,
isto
é, apenas
ao justificar
sua
situação
como
herdeira
de uma demanda
histórica,
uma determinada
postura
crítica,
qualquer
que
seja, poderia
justificar
sua
necessidade
teórica
e aspirar
a ter
o seu
espaço
institucional.
Analisando
a maneira
pela
qual
essas posturas
críticas,
no Brasil, colocam-se diante
de sua
necessidade
de auto-legitimação, seria possível,
a meu
ver,
encontrar
duas justificativas
básicas para
suas
propostas:
uma delas seria a da carência
intelectual
em
nosso
meio
e a outra
seria a da urgência
em
se estabelecer
uma identidade
teórica
independente.
Nos
dois
casos,
o diálogo
se dá a partir
da problemática
da relação
com
a teoria
produzida fora
do Brasil: num caso,
o da carência,
afirma-se a necessidade
brasileira
da constituição
e da atualização teórica
a partir
do seu
exterior;
no outro
caso,
o da urgência,
afirma-se o descompasso
social
dessa atualização e o imperativo
de uma estrutura
de pensamento
brasileiro
senão
autóctone,
pelo
menos
auto-suficiente.
A relação
entre
essas posturas,
entretanto,
não
é simétrica. Existe uma história
recente
da constituição
desses pontos
de vista
que
nenhuma sociologia
da vida
intelectual
se dispôs ainda
a elaborar.
Em
certos
aspectos,
pode-se dizer
até
que
cada
uma dessas posturas
se estabelece a partir
de uma leitura
e de uma resposta
à outra.
Em
todo
caso,
parece claro
que
a determinação
da teoria
pensada a partir
da sua
função
e história
locais,
especialmente
sensível
na teoria
da literatura,
é uma produção
mediada por
determinados
discursos
sobre
o Brasil, presentes
na antropologia,
na sociologia,
na geografia
política
e na teoria
da literatura.
Esses
discursos
mobilizam nossa
atenção
há algumas décadas,
resultando para
a teoria
a idéia
de que
é preciso
produzir
conhecimento
com
a atenção
voltada para
o contexto
e, por
extensão
(que
considero discutível),
necessariamente voltada para
a nossa
tradição
intelectual.
A proposta,
até
que
se prove o contrário,
tem, como
diz um
de seus
interlocutores,
um
“apelo
intuitivo forte”.
Liga-se a uma demanda
de responsabilidade
que
diz respeito
à atuação
do intelectual
e que
não
é exclusivamente
ou
especialmente
típica
dos países
ditos
periféricos,
embora
se manifeste neles de modo
mais
dramático.
De maneira
mais
ou
menos
generalizada, para
legitimar-se, o pensamento
deve saber
explicitar
sua
vinculação
com
a circunstância
histórica.
Mas
que
história
é essa? De que
maneira
ela
é contada?
Uma
vez
aceita a proposta
de tomar
as coisas
pelo
viés
de sua
conjuntura
(decisão
teoricamente significativa
e que
empenha
tudo
o que
já
se discutiu sobre
a idéia
de estrutura,
de centralidade, de sistema),
pode-se portanto
observar
uma linha
de força
que
interpreta a história
como
discurso
organizador
do sentido
econômico
e cultural de nossa
situação
como
críticos
do presente.
Seria preciso
questionar,
na seqüência,
as estratégias
usadas para
a constituição
dessa história.
Como
o teórico
estrutura
e justifica sua
visão
da história?
O diálogo
com
o passado
pode ser
feito
de perspectivas
e com
atitudes
bastante
distintas: ao se procurar
delimitá-lo, pode-se mimetizá-lo, engrandecê-lo; ou
rejeitá-lo, silenciando-o; projetar
sobre
ele
as preocupações
do presente,
anacronicamente; ou
despertá-lo, reteomando-o a contrapêlo; ou
ainda
pressupô-lo como
conhecido
de maneira
a não
discuti-lo, considerada a sua
grande
ou
(alternativamente)
a sua
pequena
relevância.
Ocorre
que
a história
não
é um
ponto
de vista
qualquer,
e é isso
o que
me
interessa particularmente:
atribuir
valor
histórico
aos fatos
convive com
a necessidade
de se assumir
a historicidade do discurso
da tradição.
Uma das resultantes
da escrita
da história
é justamente
o desvendamento dos mecanismos
pelos
quais,
dentro
da massa
quase
incomensurável
de acontecimentos,
determinados
interesses
levam a transformações de acontecimentos
brutos
em
eventos
com
valor
histórico
significativo.
Ao se analisar
a constituição
da nação,
por
exemplo,
uma das tarefas
da história
é desvendar
o sentido
da ideologia
romântica no Brasil, isto
é, não
apenas
definir
a consciência
romântica (supondo-se que
ela
seja homogênea,
o que
está longe
de ser
verificável), mas
analisar
como,
pela
via
dos críticos
e intelectuais
românticos e posteriores,
até
o presente
momento,
o discurso
da nacionalidade
se firmou enquanto
modo
de compreensão
dos fatos
locais.
Quero dizer
que,
sob
esse
aspecto,
a história
é um
discurso
que
se associa mais
rigorosamente
a um
regime
discursivo da interpretação
do que
a um
regime
discursivo do fato
(do evento
constituído em
sentido
da história).
Sob
pena
de projetar
sobre
o passado
todo
o peso
de uma visão
constituída aprioristicamente, a história
constitui-se mais
como
exegese
de séries
discursivas, a serem sempre
recomeçadas, do que
como
estabelecimento
de um
sentido
definido
para
o real.
Como
veremos, esse
regime
discursivo da interpretação
é freqüentemente
solapado por
um
procedimento retórico
que
consiste a considerar
a interpretação
como
fato
instransponível do presente.
Um
exemplo
marcante
é a Formação
da Literatura
Brasileira,
de Antonio Candido, que,
ao descrever
as preocupações
românticas, assume-as explicitamente como
ponto
de vista
sobre
o Brasil, ganhando, por
assim
dizer,
um
narrador que
seria Machado
de Assis, na interpretação
marota |