A imitação alusiva na poesia dramática de Sêneca e a questão dos modelos
José Eduardo dos Santos Lohner (*)
Dado o estado fragmentário em que chegou para nós toda a produção dos tragediógrafos da época da República (final do IIIº ao Iº século a. C.)(1), as peças de Sêneca são a principal e quase única referência que temos da tragédia latina(2). A perda mais significativa, do ponto de vista qualitativo, talvez tenha sido a das peças escritas na época de Augusto, duas delas, a Medéia de Ovídio e o Tiestes de Vário, consideradas pelos antigos como as obras mais perfeitas da dramaturgia latina. Foi também considerável, ao menos do ponto de vista quantitativo, o desaparecimento das peças escritas ao longo do século I d. C., período em que, conforme sugere uma passagem do Diálogo dos Oradores de Tácito, a poesia trágica parece ter sido bastante cultivada, entre intelectuais romanos, como instrumento de crítica moral, tendo como alvo, sobretudo, a vida política do império(3).

 

Em virtude de tais perdas, sendo muito limitada a possibilidade de apreciação da poesia dramática de Sêneca no contexto da tradição latina, a leitura dessas peças sempre foi feita, forçosamente, sob a luz dos textos remanescentes da tragédia grega do quinto século a. C., até porque os enredos, em boa parte, são similares(4). Desse enfoque, em que é confrontada, de um lado, a produção modelar de três dos maiores poetas gregos do gênero e que, além do mais, eram autores, por assim dizer, “profissionais”, inteiramente consagrados à atividade teatral, e de outro, a relativamente escassa obra dramática de um escritor que se celebrizou no gênero da prosa filosófica e epistolar, tendo ocasionalmente composto tragédias, resultou uma crítica de intuito valorativo, inevitavelmente depreciativa, que via, no grande distanciamento estético das peças de Sêneca em relação às gregas, uma prova tão-somente da insuficiência desse autor e da dimensão menor de sua obra dramática.

 

Essa vertente crítica, evidentemente falhou, entre outros motivos, por deixar de lado o fato de que o gênero trágico sofreu acentuadas transformações entre os gregos, como assinala Aristóteles na Poética, e, sobretudo, entre os latinos, uma vez que seus primeiros tragediógrafos tiveram que conciliar o gênero literário grego à prática teatral de origem etrusca, de longa data estabelecida em Roma. A isso ainda se acrescenta um provável aprimoramento estético ocorrido não até a época de Augusto, mas principalmente nesse período, situado cerca de meio século antes da composição dos dramas de Sêneca. Em reação a isso, os métodos de investigação aplicados mais recentemente procuram privilegiar a análise desses poemas em seus aspectos singulares, levando em conta os elementos da tradição literária latina diretamente observáveis neles, bem como os que podem ser seguramente inferidos. É sem dúvida mais lúcida e coerente a visão crítica que esse enfoque possibilita, não obstante as limitações a que está sujeito, dada a referida escassez de documentos. Nessa perspectiva, será sucintamente tratada aqui a questão dos modelos imediatos da poesia de Sêneca, por meio do exame de um expediente de composição que nela se destaca bastante: o da imitação alusiva

A linguagem poética, desde a época de Augusto, mostrou-se cada vez mais impregnada de referências a obras consagradas da literatura latina, que constituíam então um patrimônio literário. Como muitos prosadores da época de Cícero e, especialmente, os poetas da época de Augusto se tornaram — como se diz modernamente clássicos, não era mais um imperativo, para os escritores posteriores, remontar sempre aos modelos gregos. a partir de Ovídio observa-se a imitação do classicismo latino. Virgílio suscitou um maior número de imitações, por ter logo se tornado um autor escolar, aprendido de cor e sempre relido, ou “explorado cotidianamente”, conforme as palavras do próprio Sêneca: hunc [poetam] qui cotidie excutitur(5). Mesmo a tragédia latina, na época de Augusto, havia alcançado uma estatura que lhe permitia ser considerada digna de rivalizar com a obra dos grandes trágicos gregos. Essa era uma opinião corrente no primeiro século d.C., conforme atesta Quintiliano(6), que, ao referir-se às conquistas de Roma no gênero trágico, menciona Pacúvio e Ácio como grandes precursores; Vário e Ovídio como autores das mais perfeitas realizações romanas nesse gênero

Em vista desse contexto, seria surpreendente que as peças de Sêneca, escritas, em boa parte, na época de Nero, nos anos 50 e 60, não estivesse fortemente vinculada à tradição latina, no tocante à dicção poética e até mesmo à própria concepção da forma trágica, contrariamente àquela referida opinião, bastante arraigada até meados do século passado, de que suas peças eram adaptações diretas das obras dos trágicos gregos do quinto século(7). A análise comparativa indica que as semelhanças se restringem basicamente ao enredo mitológico, não havendo qualquer evidência de uma relação imediata entre os versos de Sêneca e o daqueles autores, nem uma estreita correspondência de vocabulário.
 

Justamente quanto a esse último aspecto, a poesia de Sêneca apresenta estreita proximidade com obras latinas, especialmente com aquelas que, de longa data, faziam parte da formação escolar(8). Tal utilização de modelos do classicismo latino nas tragédias de Sêneca, constatável não apenas na sua dicção, mas também na caracterização dos personagens, bem como, além disso, outros fatores como acentuadas diferenças na estrutura e na técnica de construção do drama em relação às peças gregas, a própria divisão em cinco atos, posterior a Eurípides e prescrita por Horácio, na Arte Poética, tudo isso aponta para a influência, sobre tais peças, especialmente da tragédia da época de Augusto. Esta é uma hipótese sustentada por Ronald Tarrant, num longo ensaio sobre os componentes da dramaturgia romana e senecana, onde o autor afirma, ao concluir: “Mesmo que Sêneca tenha, em alguns casos, recorrido a textos [dramáticos] da época da República ou do quinto século a. C., suas idéias sobre a forma e a linguagem trágicas haviam sido de tal modo fixadas pelos modelos da época de Augusto, que ele moldou seu material com base em suas especificações(9). Ajuda a confirmar a coerência de tal hipótese a análise, apresentada a seguir, de comprováveis referências de versos de Sêneca a modelos não dramáticos do classicismo latino, a despeito de abordar um número bastante restrito de exemplos. Para isso, serão tomadas algumas passagens da tragédia Agamêmnon que podem ser seguramente relacionadas a versos de Virgílio e Ovídio(10). Ainda o fato de ser possível apontar, ao lado desses modelos do classicismo, também uma alusão a versos de um autor arcaico como Lívio Andronico, constitui mais um índice da importância da tradição latina na linguagem trágica de Sêneca.

Nesta peça, quase todo o terceiro ato é ocupado pela longa fala do mensageiro Euríbates (versos 421-578), na qual se descreve a grande tempestade ocorrida durante o retorno da esquadra grega, após a queda de Tróia. Assim, algumas passagens do primeiro livro da Eneida, do livro XI das Metamorfoses de Ovídio, bem como da elegia I, 2 da obra Tristia desse mesmo autor, em que igualmente é tratado o tópico da tempestade marítima, podem ser apontados entre os principais modelos para os versos de Sêneca aqui indicados(11).

Convém, antes de tudo, lembrar que, nesse tipo de narrativa, era norma o emprego de certo número de lugares-comuns. Dentre esses tópoi, destacam-se por exemplo os seguintes: o cair da noite, a extensão das trevas, a agitação das águas, a menção a nuvens, trovões e raios, o entrechoque dos ventos, o pavor dos marinheiros, o perigo dos rochedos, o abandono da arte e da razão(12). No tocante ao conteúdo, obviamente isso explica a ocorrência das mesmas imagens ou de imagens análogas nos trechos desses três autores. No entanto, convém esclarecer que, na avaliação da proximidade entre esta seção do poema de Sêneca e seus modelos, o tipo de imitação considerado restringe-se ao âmbito da elocução, dentro do qual, especificamente, serão observados dois aspectos: a escolha lexical e a articulação sintática.

Em primeiro lugar, a referência às trevas e à agitação das águas aparece entre os versos 469-476 de Sêneca, que podem ser confrontados com os versos 479-481 e 517-518 do livro XI das Metamorfoses.

agitata uentis unda uenturis tumet
cum subito luna conditur, stellae cadunt,
in
astra pontus tollitur, caelum perit.
Nec
una nox est: densa tenebra obruit
caligo et omni luce subducta fretum

caelumque miscet. Vndique incumbunt simul
rapiuntque pelagus infimo euersum solo
aduersus Euro Zephyrus et Boreae Notus;
Sên. Ag. 469-476
 
a onda infla agitada aos ventos que vão vir,
súbito a lua então se esconde, estrelas caem,
o
mar até aos astros se ergue, o céu perece.
A
noite não é uma : um denso nevoeiro
cobre as trevas e, extinta toda a luz, confunde
mar e céu. Baixam juntos, de todos os lados,
e ao
pélago, turbado desde o fundo, agarram,
o
Zéfiro de encontro ao Euro e o Noto, ao Bóreas.
 
[...] longeque erat utraque tellus,
cum mare sub noctem tumidis albescere coepit

fluctibus et praeceps spirare ualentius Eurus.
Ov. Met. XI, 479-481
 
[...] E estavam longe ambas as terras,
quando o mar, sob a noite, começou a alvejar com túmidas
ondas e o Euro, precipitando-se, a soprar com mais força.
 
Inque fretum credas totum descendere caelum
Inque
plagas caeli tumefactum ascendere pontum.
Ov. Met. XI, 517-518
 
E crerias que o céu inteiro baixava sobre o mar revolto
e que, intumescido, o mar subia à região do céu

Com relação ao primeiro trecho de Ovídio, nota-se o paralelo na estruturação sintática: a construção no ablativo "uentis...uenturis" (Ag. 469), é análoga de "tumidis...fluctibus" (Met. 480-81), e ainda as orações temporais de mesmo padrão, encabeçando o verso: cum subito luna conditur (Ag. 470) que, além da sintaxe, reproduz, de modo condensado, a sonoridade do verso de Ovídio, conforme vem grifado a seguir: cum mare sub noctem tumidis... coepit (Met. 480). 

A imagem que aparece nos vv. 517-518 de Ovídio são inseridas pelo tragediógrafo, primeiramente, nos vv. 470-471 do Agamêmnon, e mais adiante, numa imitação mais direta, nos vv. 485-487, em que é conservada a sintaxe do trecho</